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sábado, 19 de maio de 2012

A FRieza da ObjetiviDADE

O 3D fez com que voltássemos à sensação do passado. Há 60 anos atrás se o espectador perdesse um filme que passou no cinema, ele teria a incerteza se algum dia conseguiria ver aquela "fita". Com muita sorte, caso o filme fosse um grande sucesso, talvez reprisassem numa matinê no próximo ano. Eu me sinto assim em relação ao 3D. Se o filme sair de cartaz, não vou ter mais aquela sensação única (quem viu Avatar na televisão, sabe o que eu estou falando).
Por essa razão tive que viajar para fora do Rio para ver A invenção de Hugo Cabret em 3D. Tive que ir até à Barra da Tijuca. Na Miami carioca, no New York City Center, na sala De Lux do Multiplex, pela bagatela de 25 reais (meia entrada). Luxos que só a aristocracia da Barra poderia ter a criatividade de criar.
A abertura é fantástica. A câmera passeia digitalmente pela Gare du Nord entre passageiros e trens. A fumaça das locomotivas e a neve do inverno Parisiense parecem passar constantemente pelo rosto do espectador. Realmente, Hugo é o filme onde o 3D foi mais bem aplicado até hoje. No entanto, como um leigo da sétima arte, me perguntei: e daí? Por diversas vezes me senti entediado. A história do orfão, que sonha em consertar um autômato que escreverá uma mensagem de seu falecido pai, não me encantou.
O trânsito de uma hora até em casa (viajar para a Barra não é mole) me deu tempo para questionar meus sentimentos. Achei o filme infantil e previsível por não mais me permitir ser ingênuo e lúdico? Teriam os problemas profissionais e pessoais do dia em questão influenciado o meu mau humor em relação ao filme? Teria me tornado uma pessoa fria?
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Compenetrado no sofá, liam-me um trabalho para a faculdade. Dentro da minha loucura e dentro do possível, tentava prestar o máximo de atenção. Apesar de entender o assunto que me era ditado, não conseguiria me lembrar agora sobre o que se tratava. A culpa era de uma frase lida logo no início. Algo sobre a subjetividade da imagem. O orador do trabalho, tinha visto meus três curtas metragens, e gostado mais do primeiro que realizei, Out of the Prohibition Era. Criei uma empatia imediata por essa preferência já que era também o meu filme preferido. A maioria das pessoas que já assistiram aos meus trabalhos de ficção, costumam preferir Ferocidade, o meu último filme. Prohibition é um filme enquadrado de forma pouco convencional, abusa da falta de foco, tem uma narrativa fragmentada e pouco explicativa. A estreia de um cineasta ainda embrenhado na demência de contar uma história. Ferocidade é um filme linear, crú, racional, extremamente suportado pela técnica cinematográfica adquirida ao longo dos anos. Prohibition é subjetivo. Ferocidade é objetivo.
Ao chegar em casa, procurei o livro A Imagem-Tempo do filósofo Gilles Deleuze. Rapidamente encontrei o trecho que procurava: "Quanto à distinção entre o subjetivo e objetivo, ela também tende a perder a importância, à medida que a situação ótica ou a descrição visual substituem a ação motora. Pois acabamos caindo num princípio de indeterminabilidade ou indiscernibilidade: não se sabe mais o que é imaginário ou real, físico ou mental na situação, não que sejam confundidos, mas porque não é preciso saber, e nem mesmo há lugar para a pergunta. É como se o real e o imaginário corressem um atrás do outro, se refletissem um no outro, em torno de um ponto de indiscernibilidade."
Era um jovem estudante de cinema com um olhar subjetivo e me tornei um artista com mais de 30 anos com visão objetiva. Meu convívio com o autor do trabalho de faculdade me fez enxergar que tinha me afastado do meu lado mais maluco para criar: a subjetividade.
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As pessoas costumam se referir a pontos chaves do filme "que não entenderam". Sobre aquela imagem "que não fez sentido". Sobre aquele filme do David Lynch sem pé nem cabeça. Talvez por ser uma forma de arte mais antiga, na pintura isso já não acontece com tamanha frequência. Não vejo uma pessoa apontando para um Kandinsky e dizendo que não entendeu. Ela gosta ou não. Fica ali admirando ou vai embora. A apreciação é mais pura.
Na sétima arte, seus espectadores vivem em busca de respostas e acontecimentos lógicos. Feliz daquele que acorda e não questiona o significado de seu sonho. Ele simplesmente aceita a falta de coerência do seu subconsciente.
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Sempre busquei na subjetividade uma forma de me conectar e construir uma realidade. O entrelaçamento do real e do imaginário sempre foi minha meta. Analisando minha condição atual enquanto artista, me assustei ao pensar nessa frieza da minha vida pessoal. Busco um imediatismo nas minhas paixões e se não são correspondidas, corto o contato. Creio que a rejeição da vida está me tornando duro, intransigente. Em suma: frio. Talvez por isso ame tanto o calor do sol carioca. Preciso de calor. Tenho necessidade de me aquecer constantemente para derreter o gelo que se instala nas minhas entranhas.
Tomei uma atitude hoje que poderia ser interpretada como um fechar de porta. Algo que não tem mais volta. Porém, a porta continua aberta, mesma que seja uma fresta. Em breve passarei por ela novamente, de preferência com minha subjetividade recuperada. Tudo vai depender do POnto de Vista.

sábado, 17 de dezembro de 2011

O MeLHOr e o PioR


Em uma cena do filme City Slickers (Amigos, sempre Amigos), os três companheiros do título contam o melhor e o pior momento de suas vidas. O personagem de Bruno Kirby conta o melhor momento de sua vida: farto de ver seu pai espancando sua mãe, ele acerta uma paulada no patriarca e expulsa-o de casa. Ele manda o pai nunca mais voltar. Os outros dois amigos ficam receosos de perguntar qual é o pior momento da vida dele. Afinal, se algo tão trágico foi o melhor momento de sua vida, imagina qual seria o pior momento?
Um deles finalmente se atreve e pergunta: "E qual foi o pior momento da sua vida?"

"O mesmo", ele responde.

2011 foi assim. O melhor e o pior.
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Depois de ser abandonado pela mulher que ama e impossibilitado judicialmente de ver a filha, o personagem de Gael Garcia Bernal em El Pasado, vai morar com o pai. Ele fica largado no sofá, vendo televisão, sem tomar banho. O pai, já em idade avançada, decide mudar-se para outra cidade. Gael pede para que o pai o leve junto. Promete lavar as roupas, limpar a casa e outros serviços domésticos. O pai olha para o filho com imenso desgosto e diz-lhe que não. O patriarca sabe que o filho precisa sair da depressão e buscar um objetivo útil da vida. E sabe também que sustentando seu filho de forma humilhante, não estará ajudando. Mas, mesmo que benéfica, a recusa não deixa de ser um duro golpe. A ideia do filme é excelente (sobre um cara que tem uma dependência extrema em relacionamentos afetivos). O livro no qual o filme se baseia deve ser uma obra interessante.
O ser humano traça metas para sua vida. Da mais simples, como comprar uma bicicleta, até a mais complexa, como tomar uma atitude que transforme o mundo. Me identifiquei muito (guardadas as devidas proporções) com o personagem de Gael. Valeu ter visto o filme só por causa dessa cena. Diversas vezes vi o caminho, que construía para atingir um objetivo, se ruir aos meus pés. Outras vezes atingi o objetivo mas não consegui segurá-lo em minhas mãos (talvez o mais duro de engolir).
Meu casamento acabou.

2011 foi assim. O melhor e o pior.
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Ferocidade entre a Urbe e a Flora ganhou dois prêmios de melhor filme. Os primeiros da
minha carreira. Ouvi meu nome ser chamado para receber o prêmio do júri popular no palco de Cuiabá. Ouvi elogios ao filme de diversos cineastas no festival de Buenos Aires. Tive o prazer de ouvir os aplausos do público ao lado do meu pai no festival de Vitória. Sumário: Ferocidade foi selecionado para 15 festivais nacionais e internacionais e ganhou dois troféus.
Meu melhor momento cinematográfico veio junto com a abertura oficial da minha produtora Krakatoa e três projetos de longa metragem para o ano que vem.

2011 foi assim. O melhor e o pior.
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Não tento esquecer os momentos ruins. São eles que me ensinarão a lidar com outros momentos negativos no futuro. Tento segurar o entusiasmo exacerbado em relação aos momentos bons. São eles que me manterão em cima do cavalo.

A dor de terminar um relacionamento. A alegria de viajar e ser "artista". A tristeza da solidão. O orgulho de escrever como nunca.
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2012 será bom e mau. Mas, acima de tudo, será um ano feliz.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

QUAndo a estética tem conteÚDO...ou é COOL

Ao trocar mensagens com uma amiga, ela me relatou que tinha terminado um curso de visagismo. Na minha ignorância, dei um google e li a seguinte descrição: "Visagismo é a arte de criar uma imagem pessoal que revela as qualidades interiores de uma pessoa, de acordo com suas características físicas e os princípios da linguagem visual (harmonia e estética), utilizando a maquilagem, o corte, a coloração e o penteado do cabelo, entre outros recursos estéticos." Desde que o mundo é mundo que as pessoas tentam imprimir suas personalidades através de elementos estéticos. Um cara de bem com a vida pode colocar uma camisa colorida (às vezes até inconscientemente) para representar esse estado de espírito, assim como uma pessoa deprimida pode se vestir de preto da cabeça aos pés.
No Rio de Janeiro, noto que nessa busca incessante por essa imagem pessoal, as pessoas se parecem cada vez mais. A gatinha no quarto se arrumando: "Sou periGUETE, então vou colocar essa sainha de babados, salto alto com sola colorida, blusinha folgada com decote generoso". Ela chega na Baronetti em Ipanema e se encontra com outras 100 meninas com os mesmíssimos trajes.
Em Tóquio, devido à semelhança física, os japas buscam desesperadamente mudar a cor de seus cabelos, usar roupas de tons berrantes e sapatos esdrúxulos. Com tamanha excentricidade e no meio de tantas cores, eles acabam ficando ainda mais iguais entre si.
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São poucos os cineastas que conseguem imprimir um estilo reconhecível. Se eu assistisse a um

filme inédito de Sergio Leone, reconheceria seu estilo sem que tivessem que me dizer nada. A maioria dos diretores são escravos de suas histórias e imprimem apenas o que existe de óbvio nas páginas do roteiro. Fiquei bastante impressionado com Danny Boyle quando li o livro que ele adaptou para fazer Trainspotting. As sequências mais geniais do filme, não estavam no livro, eram criações dele.
Numa preguiçosa viagem no sofá, me perguntei qual era o plano que caracterizava os curtas que já fiz. Eu tinha uma marca estética?
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Como num relâmpago lançado por Odin, veio à minha cabeça Quentin Tarantino (sempre ele). Todos os filmes dele têm o já apelidado trunk shot (plano do porta-malas). Um personagem abre o porta-malas e a câmera é posicionada dentro deste. Em Inglourious Basterds ninguém abre porta-malas, mas mesmo assim ele posiciona a câmera no chão e faz o plano para não perder a marca.
Nos meus primeiros curtas, isolado no inverno nova yorkino, eu resolvi sempre colocar a bandeira brasileira em quadro. Queria imprimir uma marca. Representava o lugar de onde eu vinha, mas sinceramente, era um simbolismo meio óbvio. Quando rodei o Ferocidade, sequer me ocorreu colocar a bandeira no filme. Só me toquei quando minha mãe mencionou que desta vez não tinha bandeira (só fã mesmo para notar).
O trunk shot do Tarantino é simplesmente estético, não tem qualquer valor narrativo. É simplesmente cool.
Martin Scorsese tem uma marca registrada já muito copiada. Ele aproxima a câmera rapidamente de um ator que vai em direção à ela. Esse plano é sempre associado a um momento de ansiedade, pressa ou euforia do personagem. Ele tem uma variação dessa técnica em que ele também aproxima a câmera do ator, só que lentamente e com o ator no mesmo lugar. É como se estivessemos entrando dentro da cabeça do personagem e sem que ele precise dizer nada, sabemos exatamente o que ele está pensando (na cena de Goodfellas abaixo, o personagem de DeNiro decide matar um chato).
Claro que ter o Robert DeNiro e uma PuTa soundtrack ajuda. No caso de Scorsese, o seu
dolly shot não só tem uma beleza estética, como tem conteúdo.
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É óbvio, CACeta! A minha marca registrada era o plano sequência. Não só por ter feito o último curta assim, mas por sempre ter trabalhado com longos takes.
Questionaram-me se rodar o roteiro em plano sequência não seria apenas uma opção estética que prejudicaria o desenrolar da história. Tinha certeza que não. Bolei o roteiro para isso. A pergunta era pertinente, pois uma coisa era ter um longo plano sequência nos meus filmes anteriores (que poderiam ser encarados apenas como estéticos); outra coisa bem diferente era fazer um filme inteiro em plano sequência e correr o risco de se tornar uma estética oca. Arrisquei e foda-se. O dinheiro é meu. Tô pagaaaaaaando.

Sorriso de canto de boca. Visagismo Cinematográfico. Eu TENho uma MARca!

NOTA- Buscando uma imagem representando estética para ilustrar o post, achei essa imagem baseada em Vertigo, do Hitchcock. Se você fixar os olhos no centro e se inclinar para frente e para trás, vai reparar que a imagem é 3D.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Fernando Meirelles deve ter gostado...

Ferocidade entre a Urbe e a Flora já foi selecionado e exibido em: Oaxaca Film Festival (México), 14a Mostra de Tiradentes, BigPond Adelaide Film Festival (Austrália).

Ainda será exibido nos Cine Fests Petrobras de Nova York (Junho), Vancouver, Londres, Buenos Aires e Montevidéu. A curadoria de seleção desses festivais inclui Fernando Meirelles, diretor de Cidade de Deus. Para quem sofreu no primeiro semestre de 2010 por nenhum festival ter selecionado o filme, não está nada mal.

Enquanto o circuito de festivais não acaba (impossibilitando postar na internet), dá para dar uma sacada neste teaser.

sábado, 2 de outubro de 2010

Design Feroz

Cartaz temporário para o festival de cinema de Oaxaca, México. Juliana, que trabalha na Faro Filmes, pintou meu conceito pela mágica do Photoshop. Good job!

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Calvário Feroz: O insustentÁVEL PeSO da RejeiçÂO. Parte XI

O que faz um diretor como o Kenneth Branagh dirigir o novo filme do super-herói Thor? O que faz Woody Allen sair de Manhattan? Grana, mas não só.
Branagh dirigiu Hamlet (1996), colocando na tela o texto integral da peça num filme de 4 horas. Elogiadíssimo. No entanto, o filme custou 18 milhões de doletas e arrecadou 4.

Woody Allen tem um público fiel, mas escasso. Seus filmes sempre fizeram sucesso nas grandes metrópoles, mas ficaram desconhecidos para o resto do mundo. Ah, mas e Annie Hall (o título no Brasil, Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, é um pouco indigesto), o maior sucesso de Allen que ganhou até o Oscar? Custou 4 e arrecadou 38 milhões. Um lucro considerável, mas uma arrecadação pífia se comparado a verdadeiros blockbusters. No mesmo ano, foi lançado Star Wars que arrecadou 35 milhões só no fim de semana de estréia (acumulando uma bilheteria final de 460 milhões só nos EUA). Sacanagem comparar Star Wars com Annie Hall? Outros filmes de 1977 que arrecadaram mais de 100 milhões: Os Embalos de Sábado à Noite, Encontros Imediatos de 3º Grau e Agarre-me se puderes (Smokey and the Bandit com o Burt Reynolds).

Creio que em algum momento, por mais que a crítica elogie, o cineasta sente necessidade de agradar ao grande público. Afinal, os filmes são feitos para serem vistos. Se Rodin tivesse esculpido todas as suas estátuas e as tivesse deixado em um galpão, escondidas dos olhos do público, seriam essas obras consideradas arte? Sempre questionei se pode se chamar de arte, uma obra que é apenas admirada por seu autor... Pode a arte existir sem público?

Muitos cineastas independentes não têm o menor problema (muito pelo contrário) em fazer filmes para nichos, para públicos específicos. Outros, não.

Um exemplo recorrente no Brasil são alguns atores de teatro denso que vão fazer novela. Claro que tem a ver com dinheiro, mas também tem muito a ver com reconhecimento. Em algumas festas ambientadas nas madrugadas surradas do Rio, convivo com alguns deles, que hoje são galãs de novela das oito. Por mais que eles comentem seu desprezo pelas narrativas protagonizadas na Globo, observo que sentem um intenso prazer ao serem reconhecidos, elogiados, assinando autógrafos. Artista gosta de aparecer. Ponto final.
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Enfrentando as brumas burocráticas dos festivais de cinema, já enviei o meu último curta, Ferocidade entre a Urbe e a Flora, para 35. Rejection Rejeição Denied Negado Verboten. Ver listas e listas de selecionados serem divulgadas e não ver o seu nome, é frustrante. É não atrás de não! Dizem que no início de carreira, quando Picasso não conseguia vender um quadro a um marchand, ele jogava-o no lixo assim que saía do atelier.
Nunca arremessei um Dvd pela janela ou quebrei o HD do meu computador após a rejeição de um festival. No entanto, já me comportei de forma reclusa e preguiçosa ao mandar os meus dois curtas anteriores para pouquíssimos festivais. Era como se cada rejeição significasse que ir ao correio enviar mais um filme fosse uma perda de tempo. Sola de sapato gasta à toa.
O anterior, Zero Hora, foi selecionado pelo festival de Brasília. Fiquei orgulhoso e não mandei o filme para mais nenhum festival. Tava cansado de ouvir NãO.
Ferocidade estava empacado. O filme foi exibido na MOSCA (Mostra audiovisual de Cambuquira), mas sem demérito à mostra, antes pelo contrário, não é um festival competitivo.
De oito festivais que deram resposta de seus selecionados, todos tinham subjetivamente barrado o filme. Os olhos brilham e a energia irradia ao ouvir boas novas. Ferocidade entre a urbe e a Flora foi selecionado para o Festival internacional de Oaxaca, no México. Um festival com prêmio alto e que reunirá uma interessante comunidade cinematográfica.
A felicidade bateu à nossa porta. Agora, podem falar não à vontade.

Festival de Oaxaca: www.oaxacafilmfest.com/

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Calvário Feroz: O SilêNCIO. Parte X

O siLêNcIo do estúdio cessou quando a gaita emitiu seu rugido. Começava a gravação derradeira da trilha sonora do meu último curta Ferocidade entre a Urbe e a Flora.
Meus dois curtas anteriores tinham trilha sonora alta, recheados de efeitos sonoros abrangentes. Quando os rodei, eu frequentava alguns bares do circuito underground de rock'n'roll de Nova York. A maioria desses shows era no Brooklyn. Eu acompanhava constantemente duas bandas: The Nervous Cabaret e Black Cat Revolver. Tocavam em bares em porões, em casas improvisadas (Asterisk) e nos clubs do Lower East Side (Arlene Grocery ou Bowery Ballroom). Desses mesmos bares surgiram bandas como The Strokes. Estava sempre envolvido por rock'n'roll de extrema qualidade. E nesse meio, consegui a música do Nervous Cabaret para o meu curta Out of the Prohibition Era e do Giraffes para o curta seguinte, Zero Hour.
Neste, Ferocidade entre a Urbe e a Flora, optei por uma tropa de cigarras e uma gaita esvoaçante e repetitiva. Repetitiva como o tema de Tubarão/Jaws e chatinha como a nota do insistente piano De Olhos bem Fechados/Eyes Wide Shut. Mas a referência mesmo, como não poderia deixar de ser, foi Era uma vez no Oeste/Once Upon a Time in the West e Três Homens em Conflito/The Good, The Bad and the Ugly de Sergio LeOne. Charles Bronson tocava a gaita em Era uma Vez... e Pedro Fasanello tocou para o Ferocidade. Trilha de ótima qualidade do Sr. Fasanello.
No filme, o som das cigarras gira 360º à volta do protagonista e a gaita estraçalha a vegetação da floresta da Tijuca, onde o filme foi rodado. Entre o canto da cigarra e as notas da gaita... existe silêncio.
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O curta teve seu áudio finalizado na Casa de Som - que apoiou o filme - e suas imagens concluídas e computadorizadas e dvdzadas na Faro Filmes - que produziu el filme.
Dedos martelando o mouse através de ilimitada pesquisa na internet de festivais para inscrever o benedito filho curta-metragem. Lista de Gramado a Seul, de Paulínia a Sofia. Cannes já fui recusado, muito obrigado. Gramado? Passar bem. Mas a esperança é a primeira que morre ao contrário.
Meu professor dizia na faculdade que ao inscrever um curta em dez festivais e ser aceito em um deles, já era uma ótima média. Tendo já inscrito anteriormente dois curtas em alguns festivais, e sentido muita rejeição, ganhei alguma experiência em o que não fazer - tanto psicológica como fisicamente. No entanto, o que importa é que continuo mandando o filme pelo mundo afora e esperando para ver se minha média está boa. Fly DVDs! And bring me good news!
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O silêncio entre gaita e cigarra é preenchido pelo murmúrio, pelo som da surpresa, pelos risos de nervosismo, pelo olhar da população. Um público que não tem cinema em sua cidade, mas que uma vez por ano, conta com a Mostra Audiovisual de Cambuquira, vulgo, Mosca. Um povo que não está acostumado a assistir um filme na companhia de tantas pessoas. Ingenuamente, expressam com muita emoção, os sentimentos que nutrem ao assistir as imagens da tela prateada. Claro que tem vários adolescentes engraçadinhos que fazem um barulho dos capetas tentando que seus colegas riam da palhaçada. Mas é legal lembrar de como o público de Cambuquira, interior de Minas, se comportava quando a mostra começou há 6 anos atrás. Era bem mais falante. O público Cambuquirense, hoje em dia, pede silêncio e se concentra mais nas histórias. A verdade é que eles entram na história.
Ferocidade entre a Urbe e a Flora tem três momentos chaves nos seus curtos 13 minutos. No primeiro, a audiência fez o "oooooooh" da surpresa. No segundo, o público mesclou risos sacanas com o "aaaaaah" do choque. No terceiro, algumas risadas foram abafadas... pelo silêncio.
Mais um curta-metragem pronto e sendo exibido. O ardor nas têmporas, o músculo contraído, a artéria nervosa e pulsante. Estou entre uivos da gaita e urros de cigarras. Ao silÊncio me recolho...
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Essa mostra, MOSCA, é organizada pela Ananda Guimarães e outras grandes amigas, que com muito suor levam cultura para essa cidade encantadora que se chama Cambuquira. Foi com muita honra que participei da MOSCA com o Ferocidade. Honra e pressa devido ao compromisso inadiável do Sr. Pedro Fasanello - trilheiro e diretor de arte do nosso curta - que acompanhou a mim e minha esposa, Laura, até o sul de Minas.
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Extra, extra, extra. Lembrando que a água mineral das fontes naturais de Cambuca é a melhor que já bebi (tem gás natural) e o pôr do sol vendo o voo livre dos paragliders é espetacular.
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Parabéns a Márcio Vito, o protagonista do nosso Ferocidade, que ganhou o prêmio de melhor ator coadjuvante no festival de Paulínia pelo filme 5 x Favela- Agora por nós Mesmos.
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quarta-feira, 31 de março de 2010

Mais um plano sequência para a CoLeÇÃo

Todos os cineatas, cinéfilos e entusiastas comentam o plano sequência de abertura de El Secreto de sus Ojos, do argentino Juan José Campanella. Eu acabei de rodar o curta Ferocidade -entre a Urbe e a Flora, um plano sequência. Como tal, apresento um clipe em plano sequência com grande teor de dificuldade para que se divirtam sem cortes.



quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Calvário Feroz: Aplauso ERETO para a PeÇa EscoceSA. Parte IX

Debatido e comentado exaustivamente em diversas postagens deste blog; todos sabem que o curta que rodei no ano passado foi um plano sequência. Mesmo assim continuo ouvindo a pergunta: Já editou? Parece uma pergunta sem lógica visto que não existem cortes a serem feitos, mas no fundo, tem razão de ser. Só que, a edição está no som.

Pela primeira vez trabalho com um técnico de som profissional e também estreio no desenvolvimento de uma trilha sonora original.

Nos meus filmes anteriores, eu mesmo fiz a mixagem (no primeiro não foi preciso porque era um curta em super-8, ou seja, mudo). No segundo (Out of the Prohibition Era) atingi um resultado satisfatório, mas no terceiro (Zero Hora), nem tanto. O Zero Hora foi selecionado para o festival de Brasília - uma honra- mas creio que não entrou em muitos outros festivais devido a problemas no áudio. O filme sempre foi elogiado quanto ao seu conteúdo e direção, mas sempre recebeu críticas quanto ao som. Fiquei muito revoltado ao assistir curtas pífios em festivais que recusaram o meu filme. A aceitação pelo júri/público e seus subsequentes aplausos são a razão de viver do cineasta.
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Fui assistir a um ensaio aberto de MacBeth dirigido por Aderbal Freire Filho e com Daniel Dantas como protagonista. Reza a lenda que MacBeth é uma peça amaldiçoada. Os supersticiosos teatrais se recusam a chamá-la pelo nome, referindo-se a ela apenas como a "Peça Escocesa". Minha cunhada, que é portuguesa, acompanhava-me.
Aparentemente, a maldição voltou a atacar. O ar condicionado quebrou, Daniel Dantas e companhia cuspiam o texto, impossibilitavam qualquer arco dramático e a ação movia a passo de caracol. Se eu estava suando, imagina os atores com figurino repleto de casacos pesados...

No final, o público aplaudiu de pé. Olhei para minha cunhada que não entendia nada. Curiosamente, não era pela lendária burrice atribuída aos Lusitanos. Era justamente o contrário. Portugal tem uma história teatral que iniciou-se no século XV com o dramaturgo Gil Vicente. O teatro brasileiro começou a aquecer em meados do século XX. São cinco séculos de diferença.
Nos teatros lisboetas é inconcebível que se aplauda uma peça que seja menos que estupenda. Aqui no Brasil qualquer - repito: qualquer- peça é aplaudida de pé. O nosso senso crítico para as artes está no chão. O termo "aplaudido de pé" já não tem qualquer valor.

Conheço vários atores que odeiam a crítica teatral Bárbara Heliodora. Eles dizem que ela é cruel e que destrói carreiras. Pois eu adoro a Bárbara Heliodora. É a única que tem coragem de dizer com classe mordaz que uma peça está uma merda. Se a Bárbara fosse crítica de televisão, a Rede Globo mandaria matá-la na primeira resenha sobre Malhação.

Minha cunhada continuou martelando sobre o ridículo aplauso ereto e não aguentando mais, eu disse: "Tá, mas os brasileiros são muito melhor atores que os portugueses". Enfim, o silêncio. Quem cala, consente.
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Cidadão Kane tem uma das mais famosas cenas de aplauso da história. O protagonista vivido por Orson Welles tenta emplacar sua amante como cantora de ópera. Ele que sempre conseguiu tudo devido ao seu imenso poder na mídia, não consegue que os críticos elogiem sua cônjuge (ela é ruim de dar dó). Chega ao fim mais uma de inúmeras apresentações fracassadas. O público sequer aplaude. Irritado, o magnata levanta-se e começa a aplaudir insanamente. Só se ouve sua ovação. Patético, impotente, ele para e senta-se.
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A trilha sonora do meu filme - Ferocidade: entre a Urbe e a Flora- tem evoluído entre gaitas e sons de cigarras. Espero concluir essa mixagem até o início do carnaval. Quero esse filme pronto logo. Quero que as pessoas assistam. E mais que tudo, QUERO que me aplaudam- sentados ou em pé.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Calvário Feroz: a realização de mais um curta metragem. Parte I


Conheci brevemente Darren Aronofsky quando morava em NY. Simpático, ele transmitia otimismo em tudo que falava. Todas as suas frases terminavam com um sorriso. Hoje me lembrei do otimismo desse diretor que tanto me inspira.

Darren Aronofsky declarou no making of de Requiem for a dream que após fazer Pi e ganhar o prêmio de melhor diretor em Sundance, achou que seria fácil fazer seu segundo filme. Ele tinha 30 anos de idade e com apenas um filme na gaveta (rodado por 60 mil dólares) já era considerado um dos mais promissores cineastas americanos. Os executivos dos grandes estúdios disseram que ele poderia escrever o que ele quisesse que eles bancariam o filme. Aronofsky adaptou Requiem for a dream do livro de Hubert Selby Jr. e ouviu dos mesmos executivos que eles nunca poderiam bancar tal história. Quem já viu o filme, repleto de junkies vivendo de heroína, sabe porquê. Acabou tendo que fazer o filme com um orçamento apertado, de forma independente. Concluindo, Aronofsky disse que o segundo filme foi mais difícil do que o primeiro. Imagino que o terceiro, The Fountain, deve ter sido ainda mais difícil visto que foi lançado seis anos depois de Requiem. De 1998 até 2008, Darren fez quatro filmes. Pouco para os padrões americanos.
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Eis que inicio a pré-produção do meu terceiro curta: Ferocidade - entre a Urbe e a Flora. Já me deparo com o filme mais difícil de minha autoria. Não me refiro aos apectos técnicos, e sim, ao que a obra demanda de mim. Uma demanda psicológica intensa que me leva a estados que alternam entre a depressão e a euforia. A pré-produção, que inclui toda a preparação nos mínimos detalhes para a filmagem, é a fase que mais me esgota. É a etapa que questiono ininterruptamente a qualidade do projeto e o meu talento em realizá-lo. O medo do fracasso é imenso.
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Escrevi Ferocidade ainda na faculdade em 2003. Tinha escrito para rodá-lo para uma aula de direção. Acabei tendo que trancar a aula porque estava no meu último semestre finalizando meu curta de conclusão de curso. O tempo era escasso e acabei não filmando esse roteiro.

Em 2005 finalizo Zero Hora e desde então adio todos os meus projetos artistícos.

É duro dizer isso abertamente, mas na verdade, a razão dessa procrastinação é o medo de errar. Obviamente, não existe certo ou errado na arte (talvez nem mesmo na vida), mas todos os trabalhos artistícos são julgados. Eu não lido bem com críticas negativas. Se dizem que o roteiro é confuso, me sinto ofendido. Quando mando um filme para um festival e este não é aceito, me sinto fracassado.

Peno ao pensar que já estou no Rio de Janeiro há quatro anos e que criei muito pouco. Dou como desculpa o fato de ter que trabalhar filmando institucionais para a Petrobras ou editando campanhas políticas. Sim, preciso de dinheiro, mas no fundo sei que isso são desculpas esfarrapadas. Eu sei e pessoas próximas a mim também sabem que sempre temos tempo para criar.

Estou numa midlife crisis há cinco ou seis anos que precisa se encerrar. Sempre digo aos meus amigos artistas que a obra tem que ser considerada boa pelo próprio autor que só assim conseguirá agradar a seu público. Tenho ignorado minha própria máxima. Fico preocupado com o que acharão, o que pensarão, se gostarão... Tudo isso é implícito em mim. Na maioria das vezes não percebo que estou enrolando o projeto devido a esse medo. Tenho que enfrentar esse medo da rejeição assumindo-o.
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Inicio neste blog uma espécie de diário de produção para lutar contra mim mesmo. Eu sou meu maior inimigo e irei combatê-lo. Ao tornar público este projeto, obrigo-me a prossegui-lo. Está aqui, gravado nas páginas da world wide web o meu comprometimento com a conclusão deste filme. Agora não tem mais volta. Márcio B. Venturi vencerá Márcio Monteiro Ventura Leite.
foto: Darren Aronofsky com Mickey Rourke no set por Annie Leibovitz