quarta-feira, 31 de março de 2010

Mais um plano sequência para a CoLeÇÃo

Todos os cineatas, cinéfilos e entusiastas comentam o plano sequência de abertura de El Secreto de sus Ojos, do argentino Juan José Campanella. Eu acabei de rodar o curta Ferocidade -entre a Urbe e a Flora, um plano sequência. Como tal, apresento um clipe em plano sequência com grande teor de dificuldade para que se divirtam sem cortes.



sábado, 27 de março de 2010

Fragmentos de um roteiro cinematográfico SOBRE os Nardoni



FADE IN.

EXT. FÓRUM - DIA

ROBERTO PODVAL, 50, ligeiramente acima do peso, vestindo terno impecável, anda em direção à entrada do fórum.

Uma multidão cerca Roberto, dificultando sua entrada no fórum.

Os jornalistas se aglomeram em volta de Roberto buscando a melhor imagem.

REPÓRTER GLOBAL
- Roberto Podval, advogado de defesa de Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá, acaba de chegar ao fórum onde acontece o julgamento. É grande o número de cidadãos e jornalistas em volta do advogado que tem dificuldade de chegar à entrada do fórum. Vamos tentar -

Um HOMEM, 38, porte físico avantajado, esbarra violentamente no REPÓRTER GLOBAL, 28. O homem fura a barreira de pessoas e aproxima-se rapidamente de Roberto.

Roberto arregala os olhos ao ver o homem se aproximando. Este, desfere um soco no estomâgo do advogado.

Assustadas, as pessoas se afastam dos dois. Os flashes disparam.

DOIS POLICIAIS se aproximam da confusão. O agressor se esgueira e desaparece na multidão.

Os policiais escoltam o advogado, empurrando as pessoas que atravessam seu caminho.

A testa de Roberto está encharcada de suor. Ele é quase uma marionete nas mãos dos policiais, que praticamente o carregam.

Desnorteado, Roberto consegue finalmente adentrar o fórum.

REPÓRTER GLOBAL
(olhando para a câmera)
- Como vocês puderam observar, o advogado de defesa do casal Nardoni foi agredido e teve grande dificuldade para entrar no fórum. As pessoas que se aglomeram na frente do recinto começam agora a entoar cânticos pedindo justiça. De volta ao estúdio. Sandra.

MULTIDÃO
- Justiça! Justiça! Justiça!

FADE OUT.

JUIZ MAURÍCIO FOSSEN (NARRAÇÃO EM OFF)
- Em razão dessa decisão passo a decidir que a pena seja imposta a cada um dos acusados em relação a este crime de homicídio pelo qual foram considerados culpados pelo conselho de sentença.

FADE IN.

EXT. FÓRUM - NOITE

REPÓRTER GLOBAL
- Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá são considerados culpados pelo homicídio da filha e enteada Isabella Oliveira Nardoni. O juiz Maurício Fossen continua a leitura da sentença e relata agora a pena do casal. O curioso é que a população que permaneceu na entrada do fórum durante todo o dia, ainda não se manifestou. Talvez devido ao jargão jurídico, a população parece ainda não ter entendido que o casal foi considerado culpado.


Um CIDADÃO, 60, ouve o que o repórter disse e reage.


CIDADÃO
(histérico)
- Eles foram condenados? Eles foram condenados! Eles foram condenados!


A multidão grita em uníssono. As pessoas levantam cartazes que clamavam por justiça. Idosas se abraçam. Adolescentes riem.


Fogos de artifício rompem os céus. A população comemora com alegria.


INT. CARRO DA POLÍCIA - NOITE


ALEXANDRE NARDONI, 45, abatido, algemado, observa os fogos pela janela do carro. Um POLICIAL, 35, está encostado ao carro. Ele observa ANNA JATOBÁ, 26, magra, algemada, entrando em outro carro da polícia.


Ela olha para Alexandre. Então, abaixa a cabeça e desaparece por trás do insulfilm da porta do carro que se fecha.


O policial volta sua atenção para Alexandre. O prisioneiro mantém o olhar fixo no carro onde está Anna Carolina.


POLICIAL
- Se isso aqui fosse um filme de Hollywood, essa ia ser a parte que íamos ver um flashback onde a gente ia descobrir se vocês eram culpados ou inocentes.


Alexandre olha para os fogos de artifício que estouram no céu.


ALEXANDRE
- Só que isso aqui não é filme. Não é Big Brother.
(olhando nos olhos do policial)
Isso aqui é a vida real.


FADE OUT.


O som dos fogos de artifício torna-se ensurdecedor.


FIM.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Vim, Vi, Curti (Ou NãO)

THÉATRON: Dois perdidos numa Noite Suja, dir. Sílvio Guindane, Teatro Vanucci.

Produção de Fernando Dolabella traz o texto de Plínio Marcos para o shopping da Gávea. Aula de interpretação e incorporação de um personagem: André Gonçalves. Arrebenta.






BETAMAX: Guerra ao Terror/The Hurt Locker, dir. Kathryn Bigelow, USA, 2009.

Tenso. Sutil em sentimentos. A transição final é maneira. Bom filme, apesar de ter ganho o Oscar...

Plastic City - Cidade de Plástico/Dangkou, dir. Nelson Yu Lik-wai, Brasil-China-Hong Kong-Nippon, 2008.

A ideia é em cima de um contrabandista japonês no centro de São Paulo (claramente baseado no chinês Law Kim Chong) e seu filho adotivo. Nelson Yu Lik-wai é melhor como fotógrafo do que como diretor. Visualmente cativa, mas a história é arrastada. A dublagem em português do filho adotivo incomoda.

KINO: Um Homem Sério/A Serious Man, dir. Coen Brothers, USA-UK-France, 2009.


Um colega de faculdade, que me introduziu aos filmes dos Coen Brothers, após ver O Brother Where Art Thou/E Aí, Meu Irmão, Cadê Você? (a tradução brasileira é ridícula visto que o título original é em inglês arcaico e a tradução usa gírias contemporâneas), disse: É um filme em que os Coen Brothers tentam ser os Coen Brothers.

Ao terminar de assistir Um Homem Sério, a frase desse colega veio imediatamente à minha cabeça. Ao invés de serem eles próprios, imitaram a si mesmos. Engraçadinho, mas longe do talento que lhes é inerente.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Locações in Loco - Desfile das Campeãs

1) Asas e pés brilham.
2) Verde e Rosa... e Amarelo
3) Salgueiro iluminado
4) Dilema inexistente do Policial: fotografo Vivi Araújo ou faço a segurança do Sambódromo?
5) O Fim do Carnaval

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Locações in Loco

1) WC THC
2) Girassol solitário

3) La Boca

4) A Rainha da Rocinha
5) Luzes da Sapucaí
6) A Distração gera o Bote

7) Contramão do Arcanjo


Photos by Venturi (13/02/2010 Desfile da Rocinha no Sambódromo pelo grupo de acesso. Meu 4º ano cobrindo o carnaval na avenida):

1) Banheiro químico na concentração da Av. Pres. Vargas.
2) Folião aguarda para colocar fantasia na concentração.
3) Fantasia colorida de um folião da Rocinha.
4) Eu, profissionalmente olhando para a câmera.
5) O esplendor do Sambódromo visto do camarote da Rio Samba Carnaval.
6) Cabe à interpretação de cada um.
7) Caminhando para casa (impossível pegar um taxi), passando pela R. Riachuelo.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Comentário Lampejante

The Horror! The Horror! Fiquei paralisado ao ver a lista dos 10 livros mais vendidos no país. Tem alguma coisa errada num mundo literário em que um único autor consegue emplacar 5 de seus livros no top 10. J.R.R. Tolkien é o nome da criança e Senhor dos Anéis é o nome de sua praga, quer dizer, obra. Stephenie Meyer, autora dos eclipses lunares, tinha 3 livros na lista.
Estão todos lendo o mesmo? Não existem mais autores brasileiros?

Caaaaaaaaan't live... Na lista dos dez discos mais vendidos de 2009, o abençoado Padre Fábio de Melo tem 3 discos. Victor e Léo têm também 3 discos na lista.

Estão todos ouvindo o mesmo? Não existem mais bandas estrangeiras?

A qualidade dos bestsellers sempre foi duvidosa, mas pelo menos era mais variada...

Caricatura Lord of the Rings: http://www.courtjones.com/illustration.html

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Calvário Feroz: Aplauso ERETO para a PeÇa EscoceSA. Parte IX

Debatido e comentado exaustivamente em diversas postagens deste blog; todos sabem que o curta que rodei no ano passado foi um plano sequência. Mesmo assim continuo ouvindo a pergunta: Já editou? Parece uma pergunta sem lógica visto que não existem cortes a serem feitos, mas no fundo, tem razão de ser. Só que, a edição está no som.

Pela primeira vez trabalho com um técnico de som profissional e também estreio no desenvolvimento de uma trilha sonora original.

Nos meus filmes anteriores, eu mesmo fiz a mixagem (no primeiro não foi preciso porque era um curta em super-8, ou seja, mudo). No segundo (Out of the Prohibition Era) atingi um resultado satisfatório, mas no terceiro (Zero Hora), nem tanto. O Zero Hora foi selecionado para o festival de Brasília - uma honra- mas creio que não entrou em muitos outros festivais devido a problemas no áudio. O filme sempre foi elogiado quanto ao seu conteúdo e direção, mas sempre recebeu críticas quanto ao som. Fiquei muito revoltado ao assistir curtas pífios em festivais que recusaram o meu filme. A aceitação pelo júri/público e seus subsequentes aplausos são a razão de viver do cineasta.
*****
Fui assistir a um ensaio aberto de MacBeth dirigido por Aderbal Freire Filho e com Daniel Dantas como protagonista. Reza a lenda que MacBeth é uma peça amaldiçoada. Os supersticiosos teatrais se recusam a chamá-la pelo nome, referindo-se a ela apenas como a "Peça Escocesa". Minha cunhada, que é portuguesa, acompanhava-me.
Aparentemente, a maldição voltou a atacar. O ar condicionado quebrou, Daniel Dantas e companhia cuspiam o texto, impossibilitavam qualquer arco dramático e a ação movia a passo de caracol. Se eu estava suando, imagina os atores com figurino repleto de casacos pesados...

No final, o público aplaudiu de pé. Olhei para minha cunhada que não entendia nada. Curiosamente, não era pela lendária burrice atribuída aos Lusitanos. Era justamente o contrário. Portugal tem uma história teatral que iniciou-se no século XV com o dramaturgo Gil Vicente. O teatro brasileiro começou a aquecer em meados do século XX. São cinco séculos de diferença.
Nos teatros lisboetas é inconcebível que se aplauda uma peça que seja menos que estupenda. Aqui no Brasil qualquer - repito: qualquer- peça é aplaudida de pé. O nosso senso crítico para as artes está no chão. O termo "aplaudido de pé" já não tem qualquer valor.

Conheço vários atores que odeiam a crítica teatral Bárbara Heliodora. Eles dizem que ela é cruel e que destrói carreiras. Pois eu adoro a Bárbara Heliodora. É a única que tem coragem de dizer com classe mordaz que uma peça está uma merda. Se a Bárbara fosse crítica de televisão, a Rede Globo mandaria matá-la na primeira resenha sobre Malhação.

Minha cunhada continuou martelando sobre o ridículo aplauso ereto e não aguentando mais, eu disse: "Tá, mas os brasileiros são muito melhor atores que os portugueses". Enfim, o silêncio. Quem cala, consente.
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Cidadão Kane tem uma das mais famosas cenas de aplauso da história. O protagonista vivido por Orson Welles tenta emplacar sua amante como cantora de ópera. Ele que sempre conseguiu tudo devido ao seu imenso poder na mídia, não consegue que os críticos elogiem sua cônjuge (ela é ruim de dar dó). Chega ao fim mais uma de inúmeras apresentações fracassadas. O público sequer aplaude. Irritado, o magnata levanta-se e começa a aplaudir insanamente. Só se ouve sua ovação. Patético, impotente, ele para e senta-se.
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A trilha sonora do meu filme - Ferocidade: entre a Urbe e a Flora- tem evoluído entre gaitas e sons de cigarras. Espero concluir essa mixagem até o início do carnaval. Quero esse filme pronto logo. Quero que as pessoas assistam. E mais que tudo, QUERO que me aplaudam- sentados ou em pé.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

O que aconteceria se VOCÊ não tiveSSe MeDo?

Li o título desta postagem num grafite na Tijuca. Voltava de carro com a minha mulher e a pichação estava num prédio, num 5º ou 6º andar. Será que o pichador teve medo de subir tão alto?
As palavras me afetaram porque estava pensando em algo parecido nos últimos meses (e escrito várias postagens sobre isso no blog): O que aconteceria se EU não tivesse medo de tentar?
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Sempre me considerei El Niño do talento. Uma força devastadora que atropela tudo com sua originalidade. As pessoas falam sobre a minha força de forma positiva. No entanto, o ciclone Márcio permanece estático no oceano da procrastinação, sem nunca dar as caras em terra para mostrar seu poder de "destruição". Preferi ser um tufão famoso nas águas do que encarar a possibilidade de perder minha potência e me tornar um redemoinho em terra firme.
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Em Gênio Indomável, o protagonista vivido por Matt Damon tem um QI mil vezes superior ao dos outros reles mortais. No entanto, o medo de ser tão diferente de seus amigos proletários de infância o impede de buscar qualquer objetivo na vida que não seja se meter em confusões e de pular de um emprego chinfrim para outro. Ele trata sua alta capacidade intelectual como uma maldição que o afasta da normalidade que ele supostamente almeja. A contradição surge quando ele não resiste a resolver equações matemáticas altamente complexas ou a demonstrar que conhece de cor livros de economia. Tais atitudes demonstram que ele gosta de possuir um conhecimento exacerbado, mas assim como um feiticeiro demasiadamente poderoso, teme seus próprios poderes. Good Will Hunting é daqueles filmes comerciais hollywoodianos que sempre me dão intenso prazer em assistir até o final, quando tudo acaba bem. Acho que sempre gostei do filme porque assim como o protagonista, sempre me achei um cara que mantém o seu talento recluso com temor da opinião alheia. Um artista vive para ter um público, mas esse público pode ser fã ou inimigo, e, todos temem seus inimigos.
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O medo serve como um alerta para situações que consideramos perigosas, sejam elas físicas ou psicológicas. O medo pode ser benéfico ou maléfico, dependendo de sua intensidade ou constância.

O que aconteceria se NINGUÉM tivesse medo? Veríamos o Baixinho da Kaiser enfrentando o Vitor Belfort. As velhinhas dirigiriam a 200 km/h. O mundo seria um caos.

Quando era adolescente, briguei com dois caras que me meteram o cacete. Só fiquei com a boca inchada porque o dono do bar interviu e isso me deu tempo de levantar e sair fora. Caso o dono da birosca não tivesse entrado no meio da confusão, não sei em que estado teria saído de lá. A briga só começou porque eu me senti na obrigação de machão de defender uma menina que eu mal conhecia. Fui petulante e inconsequente e me ferrei.

Foi quando ouvi pela primeira vez a frase: "É melhor ser um covarde medroso vivo, do que um herói corajoso morto." Já tinha ouvido - "Quem tem cú, tem medO" - mas por alguma razão não tinha achado muito filosófico. Hoje, acredito que não posso ser um covarde ou herói 100% do tempo, e sim, mesclar ambos nos devidos momentos. O herói que enfrenta porteiros de boate, briga com desconhecidos ou pula de paraquedas já existe há alguns anos. Esse herói só me deu problemas. Desejo que surja o herói que escreve sem parar, que desenvolve seus projetos e luta por seus sonhos e objetivos de vida.

Se o filme 2012 estiver certo e o mundo for mesmo acabar daqui há dois anos, tenho pouco tempo. O furacão precisa chegar logo em Vera Cruz.

Imagens: 1-foto título: http://s419.photobucket.com/albums/pp271/misstybooo/?action=view&current=Fear_by_seppe123.jpg&newest=1

2-O Grito de Edvard Munch.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Calvário Feroz: Olhar de Medusa. Parte VIII

Um plano sequência no parque da Tijuca em pleno feriado. Tudo preparado para o desastre. A câmera passa e a tendência dos transeuntes é olhar diretamente na lente. Quando continuam andando, a equipe está no lucro, porque a maioria empaca ao ver a câmera. É impressionante! Assistentes de produção pedem para as pessoas continuarem andando, mas elas não conseguem.O poder da câmera é intenso, hipnotizante. A câmera faz o papel da Medusa que transformava em pedra aqueles que ousavam olhar diretamente em seus olhos.
Um assistente de produção segurava o trânsito, outro controlava o estacionamento, outro impedia a passagem de pessoas por uma trilha e outro agarrava os que apareciam do nada. Obviamente não era o suficiente. Um take, que na hora quase me causou um infarto de ira, agora me faz rir: o protagonista caminha, demonstrando toda a sua preocupação, e, ao fundo vê-se uns 10 curiosos que observavam a filmagem. Todos com os olhos em Medusa.

O dia serviu de ensaio. Não consegui um único take na lata ou cartão HD. O som estava imprestável devido a um problema no equipamento (fato ocultado para não causar pânico entre todos os envolvidos no filme). Dormir, pensar, resolver.
*****
Presente: Aguardo as horas para dirigir-me à ilha de edição da Faro Multimídia onde o editor me aguarda. Em um dia mato os efeitos especiais e tons de cinza e cor. Não tenho que fazer cortes, como tal, o maior desafio será a trilha e efeitos sonoros. Esse trabalho auditivo será feito nos estúdios da Casa de Som da família Saldanha. Craques.
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Dia 2. Parque vazio. Equipe a postos. Manhã incandescente.
Um equipamento de som, munido de inúmeros microfones lapela e uma vara de boom wireless surgem no segundo dia. Mais assistentes de produção contribuindo com eficácia. Máquinas azeitadas. Quatro takes para poder escolher na sonífera ilha de edição.

Som ok? Câmera? Palmas. Lágrimas inundam meus olhos. Agarro o assistente de direção e não largo. Emoção transformada em abraço.

A desprodução inicia. Vou para o meio do mato. Sento-me à beira do rio que não se chamava Piedra, caro Paulo Coelho.

Nunca bebi água tão fresca.

(da esquerda para a direita. em pé: Pedro Fasanello, direção de arte; Mariana, maquiagem; Yan Saldanha, som; Adriano Guerra, assistente de direção e boom; Beto Thomé, steady cam; Fernando Dolabella, ator; José Amarílio Jr, direção de fotografia. sentados: Marina Rigueira, atriz; Pedro Piu, assistente de produção; Cláudio Barros, produtor; Eu; Laura Carvalho, claquete e assistente de produção; Márcio Vito, ator.)

sábado, 31 de outubro de 2009

Calvário Feroz: O mentor aconselha...Parte VII

"Garanto que estresse demais imobiliza a criatividade (...) quanto mais o artista sofre, menos criativo ele fica (...) A essa altura alguém pode mencionar Vincent Van Gogh, como exemplo de um pintor que fez coisas maravilhosas a despeito ou por conta do sofrimento. Acredito que Van Gogh teria feito coisas ainda mais maravilhosas se não fossem pelas restrições impostas pelo sofrimento."
Em águas profundas, David Lynch

Amanhã começamos o processo de filmagem do curta Ferocidade: entre a Urbe e a Flora. Nunca estive tão calmo. Ficava uma pilha de nervos antes, e, principalmente durante a filmagem.

Acho que filnalmente compreendi que não adianta estressar. Hoje, tenho a consciência de que mil imprevistos irão acontecer e que isso é normal. Não posso fazer mais nada para evitá-los. Eles acontecerão e eu e toda a equipe iremos contorná-los. É como estressar no dia anterior à uma prova. Não adianta nada. Se você estudou, não tem com quê se preocupar. Se não estudou, não adianta estressar porque nada vai mudar o fato de não ter estudado.

Acho que a experiência destes últimos anos também ajudou bastante para que essa "calmaria" tenha se apossado de mim.

Lynch tem razão. Como sempre.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Tarantino é o caralho, foda mesmo é o LaRs VoN TrIEr

Para aqueles que estão acostumados com meus títulos intelecto-pseudo-prepotentes, mas que nunca tiveram termos chulos, peço desculpas. Os referidos palavrões nada mais são do que uma forma de chamar a atenção para o cúmulo da arrogância que se apossou de mim.
Confesso que ao sair do cinema após assistir Anticristo (Antichrist, dir. Lars Von Trier, Danmark-Deutschland-France-Svenska-Italia-Polska, 2009) fiquei extasiado e irritado. Extasiado por ter visto uma obra prima e irritado por todos só falarem dele: Quentin Tarantino e seus Bastardos Inglórios (Inglourious Basterds, dir. Quentin Tarantino, USA-Deutschland, 2009). Mesmo sem ter visto o filme de Quentin, gritei no meio da rua: Tarantino é o caralho, foda mesmo é o Lars Von Trier.
Como era possível que não tinha ouvido ninguém comentar sobre Antichrist???? Um filme primoroso, bem construído com apenas dois atores, com cenas super poderosas e chocantes e que me faz refletir até ao momento em que agora escrevo. A fotografia é revolucionária e Von Trier faz uso de um super-slow (obtido com uma câmera Phantom HD) que Tarkovsky não imaginaria ser possível (Von Trier dedicou o filme ao mestre russo, o que causou incômodo entre os críticos franceses no Festival de Cannes). Anticristo tem uma das melhores aberturas que já vi. No entanto, só me cuspiam no ouvido elogios à maestria de Tarantino e seu novo filme. Vi o trailer do filme em que Hitler grita: Nein! Nein! Nein! cortando para um Brad Pitt gritando: Yes! Yes! Yes!. Como seria possível que algo assim desse num bom filme?
*****
Ontem resolvi ir ver o filme bastardo. Numa caminhada que não durou nem 10 minutos, comecei a sentir como se já andasse há horas. Foi quando me apercebi que estava ansioso e excitado para ver o filme de Quentin. Lembrei de quanto fui injusto com ele ao dizer várias vezes que Pulp Fiction não era uma obra de arte. Logo eu que me impressionei profundamente ao ver esse filme em 94. Achei o filme tão revolucionário que influenciou várias coisas que escrevi depois. Cheguei a apostar com o meu pai que o filme ganharia todos os Oscars (naquela época ainda assistia aos Oscars, acreditava em Papai Noel e que o Brasil seria a potência do final do século XX).
Mas aí, fui para a faculdade de cinema. Assisti aos mestres russos, à nouvelle vague, aos clássicos americanos da década de 70... Revi Cães de Aluguel e tudo me parecia falado demais, longo demais, falso demais. O entretenimento puro me parecia menor se comparado à um Ran ou à um Taxi Driver. Hoje, consigo diferenciar um Duro de Matar dum Fellini 8 e meio e apreciar ambos pelos seus próprios méritos.
Quando estava quase chegando ao cinema, senti que tinha injustiçado Tarantino durante vários anos. Tanto que volto agora a colocar Pulp Fiction na minha lista de obras primas do blog.
Tudo bem que ele fez o entediante Kill Bill vol.2, mas não posso censurá-lo. O projeto inicial era de um filme só com 180 minutos. Mas a máquina de fazer dinheiro, Harvey Weinstein, convenceu o diretor a fazer o filme em duas partes. Por isso que tudo de bom está no vol.1 e toda a encheção de linguiça está no vol.2 (já tive até vontade de editar as duas partes e aí sim transformar Kill Bill em obra prima). Tudo bem também que ele fez o chatérrimo Death Proof, mas isso era um projeto juntamente com o Robert Rodriguez de emular os filmes trash da década de 70. Era só experimentalismo. Um experimentalismo corajoso (e deve ter feito essa experiência fumando crack para conseguir fazer um autêntico filme ruim e trash). "Pobre Quentin. Como te injusticei" - pensei.
Ao comprar o ingresso para o Inglourious Basterds, tive a certeza que assistiria ao melhor filme de Quentin Tarantino.
*****


Quando vi Os Doze Condenados, fiquei extasiado. O Lee Marvin botando para quebrar. O roteiro macho e eficaz. E nunca tinha visto tantos bons atores em um mesmo filme: Ernest Borgnine, Donald Sutherland, Jim Brown, Robert Ryan, Telly "Kojak" Savalas, John Cassavetes e...
- Papai, como se chama aquele cara dos Doze Condenados? Aquele do Sete Homens e um Destino? Aquele do bigodinho.
Meu pai ria, já profetizando que eu ainda iria ver muita coisa do genial übermann CHARLES BRONSON.
Os Doze Condenados, Era uma vez no Oeste e Agonia e Glória são a base inspiradora para o novo filme de Tarantino (Quel Maledetto Treno Blindato de 1978, que em inglês se chamou Inglorious Bastards, nada mais é que um filme que Tarantino adorou e usurpou o título colocando uma grafia errada. A única semelhança é que ambos se passam na II Guerra Mundial). Como todos sabemos, Tarantino constrói todos os seus roteiros em homages dos filmes que gosta.
Sergio Leone e Sam Peckinpah são dois cineastas que o influenciaram enormemente. Leone copiou seu próprio estilo em Quando Explode a Vingança. Peckinpah copiou seu próprio estilo em Elite de Assassinos. Ambos tiveram resultados desastrosos.
Tarantino, o cara que faz o plágio se tornar original, plagiou da única pessoa que não poderia ter plagiado: ele mesmo.
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Inglourious Basterds é fraco. Poderia dar mil razões para escrachar, trucidar, arrebentar e violentar o filme, mas não o farei em respeito a quem ainda quer assisti-lo. Tento controlar a impetulante arrogância que volta a se apossar de mim.
Digo apenas que pesquisando para este post (já estou aqui há mais de 3 horas, o que prova o meu respeito por Tarantino apesar desse último fiasco), encontrei um vídeo em que ele enumera os seus 20 filmes favoritos nos últimos 17 anos (infelizmente está sem legenda) e tchan tchan tchan tchaaaaaaaaan...!!!::::: ELE INSERE DOGVILLE DO LARS VON TRIER ENTRE ESSES 20 FAVORITOS.

Portanto, só tenho uma coisa a dizer: Tarantino é o caralho, foda mesmo é o LaRs VON tRIEr.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Vim, Vi, Curti (Ou NãO)


Betamax - Watchmen, dir. Zack Snyder, USA, 2009.

Dos melhores filmes de super-heróis que já vi. Com um roteiro bom, a tecnologia atual permite que os quadrinhos sejam cada vez mais bem adaptados. Zack Snyder já tinha mandado bem em 300, que é um filme sem roteiro só de porradaria, e agora com um roteiro sólido, se esbalda. Este filme faz para as adaptações de quadrinhos, o que Moulin Rouge fez pelo musical. Ou seja, expõe a base do gênero retratado e destrincha, altera e parodia seus clichês sem deixar de ser fiel às origens.

sábado, 3 de outubro de 2009

Comentário Lampejante

Quando anunciaram que o Rio sediaria as Olimpíadas de 2016, o Lula e o Sérgio Cabral se abraçaram. No entanto, alguém reparou no salto de felicidade protagonizado pelo Eduardo Paes? O prefeito carioca pulou mais alto que a Yelena Isinbayeva. Muita grana vai rolar na prefeitura do Rio de Janeiro...

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Locações in Loco





Voltando de Belo Horizonte pedi para minha mulher parar em Congonhas. Não conhecia as esculturas dos 12 Profetas de Aleijadinho. Uma visão deslumbrante. Cinema Puro!

fotos tiradas no meu celular de 1 mp.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Calvário Feroz: Entre os gols da Seleção e o Tango, a Vida Imita a Arte. Parte VI.

Tudo pronto. Luzes: não são necessárias porque o filme é ao ar livre. Câmera: alugada. Ação: impossível. O diretor está imóvel.
Com exceção do figurino, que ainda precisava de algumas peças, tudo estava praticamente pronto. Faltava apresentar a locação para os atores se ambientarem e esperar o fim-de-semana passar para começarmos a gravar (a ação se passa no Parque da Floresta da Tijuca e durante o fim de semana o fluxo de turistas é muito grande).
No início da semana, eis que a gloriosa Rede Globo decide expandir a novela Caminho das Índias por mais duas semanas. O protagonista do meu curta está na novela, inviabilizando a nossa filmagem nos dias 31 de Agosto, 1 e 2 de Setembro. Só poderíamos rodar no meio de Setembro. Obviamente, isso não era culpa do protagonista que apenas cumpria seu contrato com a Globo, mas a necessidade de remarcar o filme deu uma quebra na produção.
Todos no filme estão trabalhando “por amor” (termo atenuante que significa trabalhar de graça) e ao remarcar a data de filmagem, o ritmo de trabalho de todos parou por completo. A culpa disso é única e exclusivamente minha.
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Justamente no dia em que escrevi pela última vez neste blog, fui para a minha famigerada pelada. Eu sou um convicto perna de pau, mas mesmo assim, insistem em me escalar como centro avante. Isso se deve ao fato de um inspirado e milagroso dia em que permaneci na banheira e marquei quatro improváveis gols. Eis que ao disputar uma bola bruscamente, como se estivesse num campeonato profissional, piso errado e deposito o peso do meu corpo em cima do pé esquerdo. Fratura!!! Para aqueles que não me conhecem, sim, sou eu na foto que ilustra esta postagem. A vida imita a arte visto que o personagem do filme está com a perna quebrada e anda de muletas durante todo o filme. Pelo menos agora consegui a muleta que precisava para o filme…
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Meu pai tinha marcado uma viagem para que nós fossemos à Argentina ver o jogo do Brasil. Coincidentemente estava marcada para o dia 3 de Setembro, um dia depois do que seria a filmagem. O filme estava cancelado momentaneamente e não deixaria que um pé quebrado me impedisse de viajar.
Fui, subi o estádio de muletas, gritei, pulei igual Saci com os gols históricos da seleção e só não dancei tango porque aí já seria demais. Voltei com as mãos quase em carne viva por causa das muletas e hiper-cansado. Meu pé latejou por uma semana que fiquei na cama sem vontade sequer de ir ao banheiro. O curta que tentava rodar desde o começo do ano estava adiado novamente. A imobilidade me trouxe a um estado de semi-depressão. Me lembrei muito de 8½, filme de Federico Fellini em que um diretor de cinema em crise da meia-idade não consegue rodar um filme. Ele enrola o produtor e os atores e o filme nunca acontece.
Hoje me lembrei também de um filme pouco visto chamado Coração de Caçador (White Hunter, Black Heart), o primeiro filme que vi com Clint Eastwood. Vagamente inspirado na filmagem de Uma Aventura na África (African Queen) dirigido por John Huston, Eastwood interpreta o diretor que abandona as filmagens constantemente para caçar elefantes na África. O rosto de Clint na última cena do filme (talvez sua melhor interpretação facial de todos os tempos) passa toda a sua decepção com o mundo cinematográfico e com sua pouca vontade de estar ali dirigindo aquele filme.
Numa escala infinitamente menor, sinto-me várias vezes “deprimido” com meus projetos. As dificuldades e obstáculos que consistem rodar um filme me colocam à prova o tempo todo. “Caramba, já tenho 30 anos”, repito em minha mente. Acho que isso se deve ao fato de nunca ter realmente experimentado o gosto do sucesso. Não o da fama, mas o sucesso comigo mesmo, de me sentir querido como artista. Já participei de festivais e meus filmes sempre foram bem recebidos pelo público, mas falta algo…
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Minha barba é rala e cheia de falhas. Quando fico com preguiça e não a faço, é uma visão ridícula. É como aquele bigodinho ralo de mexicano que os adolescentes adoram exibir. Decidi não fazer a barba até que consiga rodar o filme. Ontem, a mulher do protagonista me perguntou se era promessa. Não, é castigo mesmo.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Calvário Feroz: rough cut do corte bruto sem TubarÕeS. Parte V


George Lucas mostrou um rough cut de Star Wars a um grupo de cineastas. O corte bruto significava que o filme estava montado numa sequência lógica mas sem preocupações com transições suaves ou cenas demasiado longas. Nesse corte também não estavam incluídos nenhum dos efeitos especiais, que foram substituídos por cartelas com fotos ilustrativas. Foi a galhofa. Os cineastas acharam ridículo. Sem ver os efeitos especiais, Steven Spielberg, foi o único na platéia, que achou que o filme seria um sucesso.
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Já rodei oito planos sequência completos em dois dias de ensaios com câmera. Usei meu assistente nos três primeiros planos e depois meu produtor, o diretor de arte e sua assistente. A patota toda que me atura. Todo mundo fala ao mesmo tempo, executam interpretações questionáveis, brincam. Tudo está valendo porque o que importa é a cronometragem e a movimentação de câmera. Desde que façam a ação, tá tudo certo. Quando vejo os ensaios em casa, rio de algumas partes. Acho que quando o filme estiver na lata, vou me rir muito mais. Creio que um leigo que visse tal encenação, nunca acharia que um filme poderia sair dali. Não o censuraria.
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Tenho visto Janela Indiscreta para ver a técnica do Hitchcock de criar tensão e suspense através de planos longínquos. Os olhos de James Stewart passeiam pelos apartamentos vizinhos em longos planos sequência. As ações têm que ser firmes para que à distância o público possa compreender. Tudo tem que ser marcado e claro. Lento. Nos nossos ensaios, à distância não vejo direito o diretor de arte e sua assistente que interpretam uma mulher e seu carrasco no filme. Eles estão bem longe da câmera e ela leva um tapa e é arrastada para dentro da mata. O fato dos dois não serem atores e ficarem completamente estáticos, não ajudou. Preciso dos atores. Só que o ator principal está gravando o final de uma novela e o outro ator está em São Paulo. Sinto numa escala microscópica o que os estúdios de Hollywood passam quando têm que adiar seus filmes porque os protagonistas ainda estão em outros projetos. Mas não posso reclamar, visto que todos estão fazendo o filme por amor e confiança. Mas, mesmo assim, me sinto como o Spielberg rodando Tubarão sem o tubarão. O tubarão vivia dando problemas, por isso Spielberg apelou para sua criatividade e fez um filme onde o tubarão quase não aparece. Ensaiemos sem os tubarões, então.
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Creio que se mostrasse os ensaios para um Spielberg brasileiro, ele diria que este vai ser o meu melhor filme. Não o censuraria.
Foto Garota e Tubarão por Mike Berceanu.
Quadro "Watson and the Shark" por John Singleton Copely.
Quadro "Watching the sharks at Monterey" por Benoit Philippe.
Spielberg e o Tubarão por Universal Pictures.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Comentário Lampejante

Para qualquer lugar que vá, olhe, circunde e me aproxime, ouço Michael Jackson. Tem uns 18 anos que não vejo o cara tão popular.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Vim, Vi, Curti (ou NãO)



KINO- Se, Jie/Lust, Caution/Desejo e Perigo, dir. Ang Lee, USA/China/Hong Kong/Taiwan, 2007.


Tony Leung arrebenta como sempre. Um protagonista sombrio e silencioso como só ele sabe fazer. O filme é primoroso em todos os aspectos técnicos. Se não fosse a longa duração, seria uma obra prima.




KINO2- À Deriva/Adrift, dir. Heitor Dhalia, Brasil, 2009.

Uma diferença fundamental entre Heitor Dhalia e a maioria dos cineastas brasileiros, é que ele faz filmes universais enquanto os outros fazem filmes regionais. Nota-se isso logo na abertura de À Deriva. A música, os enquadramentos, ações que dispensam palavras. Poderíamos transportar a narrativa para qualquer lugar do mundo que o filme seria o mesmo. À Deriva é bom, mas não chega a ser genial como O Cheiro do Ralo. Parece que o diretor decidiu fazer algo mais light para descansar do clima pesado de seu filme anterior. Acertou na mosca. Um filme sensível, calmo e honesto. Dhalia é o cineasta brasileiro mais excitante desde que Fernando Meirelles apareceu com Cidade de Deus. Aguardo ansiosamente seu próximo filme e tenho muita curiosidade em ver seu filme de estreia, Nina.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Prozac da Semana

Trabalhei durante algum tempo da minha vida vendendo quadros. Serigrafias, Óleos, Posters, Aquarelas. Já vi muita coisa. De Vermeer a Kandinsky. Há muito tempo não via um trabalho tão interessante e inspirador (aberrante também) como o de Ray Caesar. Um amigo viu num blog, eu vi no blog dele e apresento agora no meu blog. Numa semana atarefada, o trabalho desse artista foi o Prozac que eu precisava. Ray Caesar é puro cinema.

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terça-feira, 11 de agosto de 2009

Calvário Feroz: Enquanto a grama cresce, o cavalo passa fome. Parte IV

Vendo que os atores do filme não teriam tempo de ensaiar durante a semana passada e, na ausência de minha patroa, decidi ir a BH visitar minhas avós e um amigo.
Nas 5 horas em que dirigia, tentava elucidar-me de motivos emocionais para cada parte do filme, a fim de saber onde posicionar a câmera e ter um porquê para tal. Missão ingrata devido a estúpida necessidade de prestar atenção na estrada e nas belas paisagens que circundavam o veículo.

Tagarelei com avós, primos, tios e amigo e nos momentos de pausa, li. Busquei na "biblioteca" um livro que falasse de cinema, de preferência, com uma história de superação. Encontrei Brando - Canções que minha Mãe me Ensinou.

Típico exemplo do mito americano do self made man, Marlon Brando passou de caipira a ícone do teatro e cinema. Aluno de Stella Adler, Brando revolucionou o método de interpretação, trazendo naturalidade e realismo a seus personagens. A sua geração e todas as seguintes foram influenciadas por ele. Basicamente, muitos americanos (e não só) consideram-no o maior ator de todos os tempos.

O que me chamou a atenção em sua biografia foi o fato dele querer sempre trabalhar o mínimo possível. Inventava doenças, desaparecia do set e reescrevia seus diálogos com intuito de diminuir a sua participação no filme. Um ator considerado genial, que queria fazer o seu trabalho o mais rápido possível para poder voltar para sua ilha no Taiti, suas pescarias e suas nativas da Polinésia.
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Teve uma época que sentia vergonha de mim mesmo por me sentir angustiado e tenso durante a realização de um filme. Minha vontade era que aquilo acabasse logo. Queria que todos os atores, aquelas luzes e refrigerantes repletos de cafeína sumissem da minha frente. Todos os prazeres do processo cinematográfico são para mim altamente torturantes e masoquistas. O único prazer pleno, puro e virginal é assistir ao filme pronto. Ponto final.

Decidi não mais ter vergonha disso e assumir, contentar-me. Prefiro não entrar na parte psicológica do porquê de tamanha angústia ao filmar, mas posso dizer que deve-se em grande parte ao fato de temer o fracasso. Esse temor, faz com que sofra durante atrasos na iluminação, erro de atores e mudanças climáticas. Mantenho-me num estado de incessante controle artístico que busca pela "perfeição" a todo instante que se choca com um estado de incessante vontade que aquilo tudo acabe logo. O embate desses dois estados de alerta esgotam-me de tal forma que parece que filmei durante um ano.
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Apercebi-me hoje que faltam 20 dias para o início das filmagens. Entrei em TPF (tensão pré-filme) e sucumbi à vontade de comprar um maço de cigarros. Parar de fumar é ainda mais difícil do que dirigir um filme.
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Quando Júlio César venceu a batalha de Zela, na atual Turquia, ele escreveu: Vim, Vi, Venci. Brinco com essa frase aqui no blog no espaço que dedico à dar opinião sobre filmes que vi recentemente (Vim, Vi, Curti - ou Não).

Sempre tive o hábito de pensar nessa frase quando cismo de me enclausurar em casa vendo tv quando tenho mil coisas para fazer. A outra frase é o ditado arcaico inglês que dá título a essa postagem e que eu li em Hamlet.

GRRRRRRRRRRRRRRRRRR! Ganhando forças... Sai de mim ÓCIO!!!
Saiu. Preciso marcar esses malditos ensaios.
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Olho para o lado e vejo o maço de Marlboro. O símbolo da Philip Morris tem dois cavalinhos, num brasão de armas que diz em baixo: Veni, vidi, vici. Pelo menos a indústria de cigarros está pensando positivo...

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Calvário Feroz: na TV domiciliar sou pupilo dos mestres. Parte III

Dizem que Wes Anderson, no meio das filmagens de Royal Tenenbaums, decidiu assistir a um filme de Buñuel para se inspirar. Impossível dizer que foi por falta de organização ou não saber o que filmar. Esse caboclo planeja os planos meticulosamente. De Bottle Rocket à Darjeeling Limited a direção de arte é exemplar, os móveis posicionados simetricamente, a roupa dos atores condiz com sentimentos ou com a cor do espaço (olha a foto acima). O cara é geek, porra. Já viu CDF desorganizado? Ele realmente foi assistir ao filme de Buñuel para se inspirar em algo que faria similarmente ao mestre.
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Quentin Tarantino e Brian de Palma fazem referência aos grandes mestres? Sim. São plagiadores? Óbvio que não. Plágio (pago e consentido) é o Lata Velha do Luciano Huck em cima do Pimp my Ride da MTV. Esses dois diretores simplesmente fazem das suas referências algo explícito e escancarado. Tarantino se diverte filmando Sergio Leone com espadas ao invés de revólveres. De Palma reverencia Hitchcock de forma trash e jocosa em inúmeros filmes. Os caras mandam bem brincando com o trabalho dos outros e não devem ser menos respeitados por isso (apesar de De Palma estar quilômetros à frente de Tarantino).
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Com essa história do curta que rodarei em agosto ser um plano sequência, tenho revisto alguns filmes clássicos e nem tão clássicos. Irreversible foi um deles. Aprendi muito com o making of. Podem falar que o filme é grotesco, nojento, ruim, pútrido, etc, mas raramente o plano sequência foi tão bem usado, coreografado e do cacete. Estamos numa democracia, respeito o gosto alheio e admiro tremendamente a individualidade crítica de cada um, mas, quem acha esse filme ruim é um babaca. Ou, eu sou um babaca (que é algo bem plausível).

Vi também Blow Up de Michelangelo Antonioni. Meu filme se passa no meio da floresta da Tijuca e, apesar da diferença de estilo, os planos sequência no parque inglês foram bastante inspiradores.
Meu assistente de direção lembrou hoje de Shining/O Iluminado do Stanley Kubrick. Sem dúvidas não poderia me esquecer de assistir a essa joia. Talvez amanhã.
Preciso ainda rever The Man with the Golden Arm do Otto Preminger com um Frank Sinatra fazendo um junkie de heroína. Enfim, tenho que ver ainda várias coisas.

Os mestres estão aí para isso; para nós plagiarmos. Quer dizer, nos inspirarmos.
foto: Wes Anderson na sua loja de taxidermia preferida (Paris) por Andrew Eccles da NY
Magazine. Olha os lugares que a criança gosta de frequentar...

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Vim, Vi, Curti (ou NãO)

KINO - L'instinct de mort/Inimigo Público Nº1, dir. Jean-François Richet, France/Canada/Italia, 2008.

Uma cena no ínicio mostra que o protagonista não gosta de seguir ordens. Uma cena com o pai mostra que o protagonista quer ser o oposto do patriarca dominado pela esposa. Tirando isso, não existem mais explicações para o comportamento violento e suicida do biografado. É um filme de ação vazio com muito sangue? Sim, mas só por não ser americano e estrelar o nervoso Vince Cassel, já vale o ingresso. Guardadas as devidas proporções, me lembrou Borsalino & Co., com Alain Delon, que é um clássico.

KINO 2 - Nunta muta/Casamento Silencioso, dir. Horatiu Malaele, Romania/Luxembourg/France, 2008.

Soluções visuais mirabolantes e eficazes. Reverência ao cinema mudo. Interessante como o público no cinema faz mais barulho que os atores na tela que precisam celebrar um casamento sem que o exército soviético perceba. A magia na tela me lembrou Fellini...

KINO 3 - A Festa da Menina Morta, dir. Matheus Nachtergaele, Brasil, 2009.

Os planos sequência nem sempre fazem sentido no filme. Às vezes o diretor parece bem seguro e o filme desenrola bem, mas quando cisma de copiar o estilo de Cláudio Assis, ele se perde.

ANTENA - Som & Fúria, dir. Fernando Meirelles, Brasil, 2009.


Sem grandes inovações apesar de eficaz e engraçado. De original, somente o fato de duas personagens fumarem maconha sem serem taxadas de bandidas, perdidas ou loucas (coisa que 35 anos de novelas na Globo nunca mostrou).

sábado, 18 de julho de 2009

Calvário Feroz: Plano sequência no meio do mato - uma loucura programada. Parte II

Um plano sequência nada mais é do que uma cena filmada sem interrupções/cortes. Vídeos caseiros são repletos de planos sequências visto que aquela tia velha pega a câmera e roda sem cortar por uns 30 minutos. A alma do cinema sempre foi a montagem, a edição.
Vemos um homem sentado à mesa de longe, corta para ele mais perto e finalmente corta para um close de sua mão levando uma xícara de café à boca. Num plano sequência, vemos o homem sentado à mesa de longe, a câmera se aproxima da mesa chegando mais perto até que se chegue ao close da xícara. Em teoria, o plano sequência pode parecer mais real, já que é mais orgânico, mas é justamente a montagem que faz com que as narrativas pareçam mais autênticas.

Chama-se de montagem Hollywoodiana ou invisível quando os cortes são feitos de forma que o público não perceba o aparato cinematográfico. O homem está sentado à mesa num plano aberto, corta-se para um plano mais fechado, e somente quando ele se movimenta para pegar a xícara, cortamos para um close. Se formos direto do plano aberto para o close, a tendência é que a transição seja muito brusca e o espectador "saia" do filme.

O plano sequência, como não tem cortes, faz com que o espectador comece a prestar atenção em outras coisas que não seja a ação da cena. Assisti ainda agora à Festa da Menina Morta de Matheus Nachtergaele, um filme repleto de planos sequências (recurso que no cinema brasileiro tem mais a ver com questões financeiras do que estéticas. Enquadra-se uma cena, faz-se o ator despejar o texto todo duma vez e pronto. Sem rodar closes, planos médios, inserts, variações de planos gerais, o filme é rodado mais rapidamente e como tal, sai mais barato). No filme, tem um momento em que Cássia Kiss faz um monólogo com Daniel de Oliveira ao fundo. Eles quase não se mexem enquanto ela discursa ininterruptamente. A tendência é que seus olhos comecem a passear pela tela e sua mente divague. Quando o filme é bom, esse recurso é usado justamente para "tirar" o público do filme e fazer com que ele questione temas ou ideias apresentadas pelo diretor. Nesse momento, tem-se completa noção que estamos assistindo a um filme, que estamos numa sala de cinema e assim por diante. Um filme como Duro de Matar, que tem uma montagem invisível e rápida, não deixa que desgrudemos os olhos da tela, não nos dando tempo para piscar, quanto mais para pensar. Dizem que é por isso que Hollywood domina o mundo, porque seus filmes não são feitos para pensar...

O filme que rodarei em agosto será composto por um único plano sequência. No entanto não será um plano sequência como os da Festa da menina Morta ou os de vários filmes de Jim Jarmusch e Antonioni. Nos planos sequência desses filmes, a câmera raramente se mexe, e por isso causam esse efeito de reflexão em quem assiste. Neste curta, o plano sequência acompanhará o protagonista para onde quer que ele vá. E olha que o bicho vai entrar dentro da floresta da Tijuca. A câmera estará em movimentação constante, trocando de foco, mudando a perspectiva e assim, não "tirará" tanto o espectador da narrativa. Será uma mistura de ação desenfreada em que o público está imerso no filme e momentos de placidez em que se apercebe do aparato cinematográfico ("existe um diretor, existe uma câmera, opa, tô vendo um filme"). Se existirá reflexão...aí já não sei. Espero que sim.
Porque todos que entendem de cinema dizem que sou louco por rodar um filme em um único plano? Ensaios têm que ser milimétricos, a equipe tem que estar muito bem sincronizada, em caso de erro do elenco ou da equipe técnica tem que se começar tudo de novo, sombras da câmera podem estragar tudo (em Irreversible apagaram sombras com softwares específicos) e por aí vai. Mas, meu medo mórbido e angustiante é apenas um: pode ficar chato pra caralho. Tem um momento que o protagonista tem que andar por um minuto, no meio da mata, sem falar nada. O desafio é imenso, o maior de minha curta carreira. Minha segurança tem vindo das pessoas que se envolveram neste projeto. Acreditam em mim (ou pelo menos fingem).

Meus dois filmes anteriores têm vários planos sequências. No primeiro, Out of the Prohibition Era, o protagonista vinha andando de longe e demorava uns 40 segundos para chegar perto da câmera. Para alguns, esses 40 segundos pareciam uma eternidade. Para outros, foi o melhor plano do filme. Gosto é gosto. Bunda é bunda.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Prozac da Semana


Meu velho curta (Zero Hora de 2005) foi projetado em Ipanema. Já tinha rodado os festivais que precisava, como Brasília e o New York Brazilian Film Festival, mas nunca tinha sido exibido no Rio. Coloquei o filme nessa mostra com a intenção de que alguns amigos que nunca viram o filme fossem lá prestigiar. Foi maravilhoso sentir a energia do público depois de tanto tempo (a casa estava lotada apesar de conhecer poucas pessoas). As risadas, a tensão. Acho que no fundo queria me sentir querido de novo como artista antes de rodar este novo curta em agosto. A maioria dos convidados não compareceu. Mas os que compareceram é que contam. Aprendi isso amargamente numa festa de aniversário de 15 anos. Só interessa quem está presente. E os que apareceram, me fizeram feliz...