sábado, 19 de maio de 2012

A FRieza da ObjetiviDADE

O 3D fez com que voltássemos à sensação do passado. Há 60 anos atrás se o espectador perdesse um filme que passou no cinema, ele teria a incerteza se algum dia conseguiria ver aquela "fita". Com muita sorte, caso o filme fosse um grande sucesso, talvez reprisassem numa matinê no próximo ano. Eu me sinto assim em relação ao 3D. Se o filme sair de cartaz, não vou ter mais aquela sensação única (quem viu Avatar na televisão, sabe o que eu estou falando).
Por essa razão tive que viajar para fora do Rio para ver A invenção de Hugo Cabret em 3D. Tive que ir até à Barra da Tijuca. Na Miami carioca, no New York City Center, na sala De Lux do Multiplex, pela bagatela de 25 reais (meia entrada). Luxos que só a aristocracia da Barra poderia ter a criatividade de criar.
A abertura é fantástica. A câmera passeia digitalmente pela Gare du Nord entre passageiros e trens. A fumaça das locomotivas e a neve do inverno Parisiense parecem passar constantemente pelo rosto do espectador. Realmente, Hugo é o filme onde o 3D foi mais bem aplicado até hoje. No entanto, como um leigo da sétima arte, me perguntei: e daí? Por diversas vezes me senti entediado. A história do orfão, que sonha em consertar um autômato que escreverá uma mensagem de seu falecido pai, não me encantou.
O trânsito de uma hora até em casa (viajar para a Barra não é mole) me deu tempo para questionar meus sentimentos. Achei o filme infantil e previsível por não mais me permitir ser ingênuo e lúdico? Teriam os problemas profissionais e pessoais do dia em questão influenciado o meu mau humor em relação ao filme? Teria me tornado uma pessoa fria?
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Compenetrado no sofá, liam-me um trabalho para a faculdade. Dentro da minha loucura e dentro do possível, tentava prestar o máximo de atenção. Apesar de entender o assunto que me era ditado, não conseguiria me lembrar agora sobre o que se tratava. A culpa era de uma frase lida logo no início. Algo sobre a subjetividade da imagem. O orador do trabalho, tinha visto meus três curtas metragens, e gostado mais do primeiro que realizei, Out of the Prohibition Era. Criei uma empatia imediata por essa preferência já que era também o meu filme preferido. A maioria das pessoas que já assistiram aos meus trabalhos de ficção, costumam preferir Ferocidade, o meu último filme. Prohibition é um filme enquadrado de forma pouco convencional, abusa da falta de foco, tem uma narrativa fragmentada e pouco explicativa. A estreia de um cineasta ainda embrenhado na demência de contar uma história. Ferocidade é um filme linear, crú, racional, extremamente suportado pela técnica cinematográfica adquirida ao longo dos anos. Prohibition é subjetivo. Ferocidade é objetivo.
Ao chegar em casa, procurei o livro A Imagem-Tempo do filósofo Gilles Deleuze. Rapidamente encontrei o trecho que procurava: "Quanto à distinção entre o subjetivo e objetivo, ela também tende a perder a importância, à medida que a situação ótica ou a descrição visual substituem a ação motora. Pois acabamos caindo num princípio de indeterminabilidade ou indiscernibilidade: não se sabe mais o que é imaginário ou real, físico ou mental na situação, não que sejam confundidos, mas porque não é preciso saber, e nem mesmo há lugar para a pergunta. É como se o real e o imaginário corressem um atrás do outro, se refletissem um no outro, em torno de um ponto de indiscernibilidade."
Era um jovem estudante de cinema com um olhar subjetivo e me tornei um artista com mais de 30 anos com visão objetiva. Meu convívio com o autor do trabalho de faculdade me fez enxergar que tinha me afastado do meu lado mais maluco para criar: a subjetividade.
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As pessoas costumam se referir a pontos chaves do filme "que não entenderam". Sobre aquela imagem "que não fez sentido". Sobre aquele filme do David Lynch sem pé nem cabeça. Talvez por ser uma forma de arte mais antiga, na pintura isso já não acontece com tamanha frequência. Não vejo uma pessoa apontando para um Kandinsky e dizendo que não entendeu. Ela gosta ou não. Fica ali admirando ou vai embora. A apreciação é mais pura.
Na sétima arte, seus espectadores vivem em busca de respostas e acontecimentos lógicos. Feliz daquele que acorda e não questiona o significado de seu sonho. Ele simplesmente aceita a falta de coerência do seu subconsciente.
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Sempre busquei na subjetividade uma forma de me conectar e construir uma realidade. O entrelaçamento do real e do imaginário sempre foi minha meta. Analisando minha condição atual enquanto artista, me assustei ao pensar nessa frieza da minha vida pessoal. Busco um imediatismo nas minhas paixões e se não são correspondidas, corto o contato. Creio que a rejeição da vida está me tornando duro, intransigente. Em suma: frio. Talvez por isso ame tanto o calor do sol carioca. Preciso de calor. Tenho necessidade de me aquecer constantemente para derreter o gelo que se instala nas minhas entranhas.
Tomei uma atitude hoje que poderia ser interpretada como um fechar de porta. Algo que não tem mais volta. Porém, a porta continua aberta, mesma que seja uma fresta. Em breve passarei por ela novamente, de preferência com minha subjetividade recuperada. Tudo vai depender do POnto de Vista.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Além da CAntAdA

Depois de muito trabalho, buscava o escurinho do cinema. Queria prestigiar o cinema tupiniquim vendo Heleno ou Xingu, mas a distância e a preguiça me impediram. Fui ao cinema perto de casa mesmo. Fui assistir a um filme que a sinopse havia me intrigado: Cairo 678. O filme conta a história de mulheres que sofrem assédio sexual diariamente pelas ruas do Cairo, Egito. O título da película se refere a uma linha de ônibus que devido a sua grande lotação, permite que homens fiquem com as mãos bobas no coletivo. Uma mulher decide dar um basta ao assédio diário através da violência.
Lembrei da primeira vez que vi o vagão exclusivo para mulheres no Metrô do Rio. Dentro de um horário X, somente mulheres podem entrar nesse vagão segregado. Achei que outras minorias (engraçado falar da mulher como minoria no Brasil, já que são maioria de acordo com o censo) deveriam também reivindicar seus respectivos vagões. Um vagão para preto não ser chamado de crioulo. Um vagão para os homossexuais não tomarem porrada por serem viados. Talvez até, um vagão para os judeus não serem chamados de pão-duros. O segredo da convivência estaria na proibição ou na fiscalização? Na segregação ou na educação?
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Enquanto garçom em Nova York, trabalhei em dois restaurantes em bairros gays. Foi importantíssimo para extinguir minha homofobia oriunda da "tradicional família mineira". Me acostumei a ver dois neguinhos se pegando. Finalmente, descobri que estava curado desse preconceito quando vi dois caras andando de mãos dadas. A pergunta que expurgou meu preconceito: O que eu tenho a ver com a vida privada desses barbados?
Outra lição caminhando por Chelsea e West Village foi a compreensão do status da mulher cantada e assediada pelas ruas. Eu levava pelo menos duas cantadas por noite ao caminhar para o metrô (e olha que eram só quatro quarteirões). Eu, como uma donzela de cuecas, imitava as mulheres, ignorava a gracinha e seguia meu caminho.
Muito se comenta sobre a tal promiscuidade dos homossexuais e uma vez um colega de restaurante, que era gay, me disse: "Viado é promíscuo porque é homem e não porque é viado". Faz sentido.
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Cairo 678 é uma viagem à outro patamar de cultura. Mulheres que ao colocar o pé na rua, sofrem agressões sexuais, verbais, físicas. Um local onde pegar um ônibus pode ser uma viagem desagradável e intrusiva. É a introspecção de nossa ignorância de país "democrático". Uma estratosfera em que a mulher não ocupa qualquer espaço de importância na sociedade.
Independente do filme se arrastar, senti uma lufada de conhecimento ao enxergar diferenças tão exdrúxulas no mesmo planeta. Um estudo antropológico do Egito, cultura que já foi considerada uma das mais avançadas do período pré-Cristo.
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Saio do cinema. Acendo um cigarro e caminho o quarteirão até meu prédio. Um cara bombado passa por mim e sussura: "Delícia".
Acabou-se o conceito da "bicha" magra e desmunhecada. O cara era um armário. Continuei caminhando. Cantada: o primeiro escalão do assédio. O lado feminino veio à tona.
Entro no prédio e o porteiro cumprimenta: "Boa noite, Doutor." Não gosto que me chamem de doutor, mas nesse dia foi bom. Ser mulher ou gay deve ser bem complicado.

domingo, 15 de abril de 2012

Novamente a palavra MeDo se instala...


Após um soberbo passeio de moto no sábado, reúno as almofadas e estico os membros no sofá. Vai começar Drive de Nicolas Winding Refn. A vibe anos 80 invade minha sala numa sequência quase sem diálogos de uma fuga pós-roubo. Du Rififi chez les hommes vem à memória com sua famosa sequência de assalto a banco que dura 30 minutos sem uma única palavra ser emitida. De repente, os créditos de abertura. Música alta, retrô porém moderna, enquanto os créditos (Rosa pink) surgem no ecrã. Recordei Thief, o primeiro filme de Michael Mann, que também abusou de sequências de assalto sem diálogos e da trilha eletrônica dos Tangerine Dream. A música usada adequadamente no celulóide é um prazer inenarrável. Que abertura. Que porrada.
Comecei a compreender o porquê da euforia de vários cinéfilos em relação ao filme e ao prêmio de melhor diretor em Cannes. Refn consegue realizar um grande desejo que tenho: associar enquadramentos interessantes, imagens que falam mais que palavras e o ritmo moderno e acelerado de Hollywood. Não estava diante de um filme de ação normal. Na verdade, nem sei se pode-se dizer que é um filme de ação. Drive é "inrotulável".
No entanto, a grande surpresa veio quando surge um prenúncio de relação amorosa na tela.
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Todos sofremos (Tristeza não tem fim, felicidade sim). Como seres racionais, penso que ainda sofremos mais. Minha gata sabe que vai tomar uma bronca ao revirar o lixo, mas o instinto fala mais alto. O prazer de roer aquele osso vindo da lixeira compensa a palmada que pode estar por vir. O mesmo não acontece conosco.
O medo da dor, do sofrimento, das lágrimas, diversas vezes, nos impede de avançar. Esse mergulho no vazio pode vir com uma extasiante recompensa em nossas mãos, mas o receio de voltar com as mãos sangrando do mesmo salto, nos trava. Congelados, deixamos o medo ditar nossa vida e não aproveitamos paixões que estão a um passo de nossos corpos.
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O driver (interpretado por Ryan Gosling) se encanta por sua vizinha, mas obviamente, não consegue se entregar. A timidez não é o foco, mas talvez o medo de machucar e se machucar. O meio que escolheu ganhar a vida é brutal e se alguém estiver ao seu redor, pode muito bem sofrer as consequências. O protagonista parece estar quase se entregando, abandonando o medo, mas eis que o marido da vizinha volta para casa.
A "nobreza" do personagem, em meio ao furacão de violência que oscila, é uma metáfora para o cavalheirismo que desapareceu desde o final do século passado. Os trovadores do passado enalteciam o amor verdadeiro, aquele que independe de se estar ao lado da amada. O amor verdadeiro faz com que desejemos o melhor para a amada mesmo que não possamos tocá-la ou vê-la. Me chamem de louco após assistirem o filme. Como posso falar de amor verdadeiro num filme tão violento e insano? Pelas escolhas do personagem. Ele não vai se envolver com a vizinha casada, mas vai tirá-la de perigo mesmo que isso lhe custe a própria vida. Ele escolheu viver o caminho que se traçou à sua frente. Então, não teve mais medo.
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"Não me envolverei mais com mulheres que trabalham demais", disse ele. "Nunca mais quero saber de homem maconheiro", disse ela. Nesse emaranhado de frases que acabam virando regras para nossas vidas, vamos perdendo a beleza do instinto, do impulso, do ímpeto. Mergulhemos de cabeça nas oportunidades que surgem em nossas vidas.

Nota: Para assistir aos berros. Infelizmente não consegui ver no cinema...

quarta-feira, 7 de março de 2012

O DoCE temPERo do Pé nA BUNda


Um filme que foi bastante exibido na minha faculdade chamava-se New York Stories. Era um filme dividido em três histórias dirigidas por Martin Scorsese, FF Coppola e Woody Allen. Estudávamos a de Scorcese (as outras duas eram descartáveis). Nick Nolte fazia um pintor que estava à beira da separação com sua namorada bem mais jovem. Ele tem que entregar uma série de quadros para uma exposição mas vive um bloqueio criativo por causa do turbilhão que está a sua vida amorosa. Quando ela leva um cara para dentro do apartamento (que ainda divide com o pintor), o relacionamento chega ao final. Sozinho no estúdio, com a relação terminada, ele começa a produzir incansavelmente e consegue cumprir o prazo e entregar os quadros para a exposição. Na vernissage, com a missão artística cumprida, ele começa a flertar com uma atraente garçonete e um novo ciclo de paixão se anuncia. O personagem necessita viver intensamente uma paixão, terminar esse relacionamento gerando muito conflito para conseguir criar.
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Após o término do meu casamento, senti um vazio incrível. Perdi não só a minha mulher como a minha melhor amiga. Fiquei duplamente orfão. Durante dois meses não olhava sequer para outras mulheres, não conseguia ver graça. Esperava que o tempo colaborasse comigo e me ajudasse a esquecer. No entanto, o tempo não estava colaborando. Resolvi usufruir do clichê máximo aconselhado para essas situações: mergulhar no trabalho. Durante um ano, abri minha produtora, escrevi curtas, desenvolvi projetos, tive várias reuniões criativas e consegui pela primeira vez, trabalhos remunerados como diretor. A dor não se esvaiu, mas pelo menos diminuiu. Neste carnaval, ao completar um ano do fim, me desmaterializei na folia momesca, me diverti como um Baco e finalmente consegui me libertar. Todo mundo leva um pé na bunda em alguma ocasião da vida e cai de boca no chão. Lembrei de Sêneca e sua imortal frase: "A honra não consiste em nunca cair, e sim em levantar cada vez que se cai."
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Quem conhece a obra de David Lynch sabe que seus filmes são sombrios, estranhos e que

podem causar mal estar. Sempre fui um de seus ardorosos seguidores e me espantei ao ler seu livro Em águas profundas. Li um autor calmo, que medita e que não se assemelha em nada a seus personagens malucos. Fiquei ainda mais espantado quando ele placidamente declara que antes de começar a meditar, vivia em conflito com sua esposa e que esse foi o período menos criativo de sua vida. Seus roteiros vêm de suas observações mundanas e não de seus conflitos internos.
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Neste ano solteiro, voltei a jogar futebol, a exercer a paciência e a criar muito (desde os tempos da faculdade que não sentia meu cérebro tão ativo). Por que temos que levar um pé na bunda para colocar a vida em ordem? A verdade é que não precisamos. Ficamos acomodados no casamento, observando a barriga crescer e a ruptura da relação nos obriga a mudar a rotina.
Estava no meu escritório (como carinhosamente chamo o boteco que frequento) com um amigo e mencionei que tinha conhecido uma mulher muito interessante e que estava disposto a começar um novo relacionamento. Ele, também um artista, declarou: "Você não pode casar agora. Sua carreira ainda não está estabelecida." Ri da afirmação e me pus a pensar... Por que um relacionamento sério é empecilho para a criação? Não é. Tudo é possível, basta ter força de vontade. Assim como no curta que estou produzindo (Mega Sena da Faro Filmes) que fala sobre lendas urbanas que supostamente não existem, em algum lugar um anão está sendo enterrado, gêmeos pretos estão nascendo e um gay se converterá em heterossexual. Tudo é possível.
Não comecei a namorar a tal mulher interessante por fatores que prefiro não expressar, mas a ligeira frustração que isso proporcionou, não me bloqueou criativamente. Assim como a felicidade de um relacionamento amoroso também não pode bloquear. Sozinho, continuo caminhando.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Filmospectiva 2011


(Assistidos esse ano, não necessariamente produzidos/exibidos em 2011)

A Decepção: Melancholia, dir. Lars Von Trier, Den/Sue/Fra/Ale, 2011
Não é um filme ruim, mas não chega aos pés de seus trabalhos anteriores. O filme demora a dizer a que veio e quando diz, me pareceu um pouco óbvio. Óbvio é algo que nunca tinha visto na obra de Von Trier e isso me decepcionou.
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A Surpresa: A Suprema Felicidade, dir. Arnaldo Jabor, Brasil, 2010
Ouvi muita gente dizendo que o filme era chato. Dei ouvidos e não fui ver. No CineFest Buenos Aires, depois de caminhar muito pela cidade, resolvi assistir. Que filme magnífico. Uma obra de quem teve infância. Uma obra de quem já viu muitos filmes (principalmente Fellini). Uma obra de um Homem (com "H" maíusculo) que observa seus arredores e entende e ama o Rio de Janeiro. Se Toda Nudez Será Castigada não é uma obra prima (a peça é), hoje credito a culpa à falta de grana. Pela primeira vez, Jabor teve um orçamento decente à sua disposição e gastou muito bem cada centavo. A narrativa é mágica e, ao contrário de muitas produções nacionais, a parte técnica é impecável.


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Los Hermanos: Un Cuento Chino, dir. Sebastián Borensztein, Arg/Esp, 2011
Um Conto Chinês começa lento. Ricardo Darín faz o papel mal humorado de sempre. Parece que tudo vai dar em mesmice. De repente, a trama começa a me envolver e não consigo mais tirar os olhos da tela. A meia hora final é emocionante e me fez lacrimejar. O diretor é sempre sutil sem querer se mostrar presente na película e esse é um dos trunfos do filme.


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Trabalha bem pra cacete: Carlos, dir. Olivier Assayas, Fra/Ale, 2010
Édgar Ramírez encarna o famoso terrorista/revolucionário Carlos, o Chacal. O ator venezuelano entrega uma performance magnífica. Ele dá uma de De Niro e aparece atlético na fase jovem e barrigudo quando mais velho. Na trama, fala fluentemente inglês, espanhol, francês, alemão e engana com algumas palavras em árabe. Demonstra facialmente todos os seus dilemas e angústias. Um ator completo numa história muito bem construída em três episódios para a Tv francesa.


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Tv com cara de cinema: HBO
Se o cinema americano vive uma crise de boas histórias, o mesmo não pode ser dito de sua televisão. As melhores coisas que vi da dramaturgia americana foram em forma de séries. Enquanto o cinema mira grandes públicos de milhões de pessoas (e como tal, tem que criar tramas para agradar a todos), a tv a cabo mira em pequenos nichos de 5 milhões de espectadores. Dessa forma, ela cria conteúdo específico para públicos específicos. Isso beneficia os roteiros. Boardwalk Empire que se passa durante a lei seca em Atlantic City é primoroso e mata as saudades de quem adorava The Sopranos.


Mildred Pierce comprova que Kate Winslet é das melhores atrizes vivas e que o diretor Todd Haynes entende tudo de mulher.


Game of Thrones é uma jóia rara. É um Senhor dos Anéis para adultos. Atores fabulosos, figurinos perfeitos, efeitos especiais de babar, direção espetacular, uma trama política envolta de sexo e violência e um anão. O anão é demais. Trabalho de gênio feito para a televisão, mas com cara de épico cinematográfico.


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Besteirol: The Hangover, dir. Todd Phillips, USA, 2009
Muito engraçado. Segue a mesma fórmula clássica de qualquer comédia, mas o escracho é século XXI. Deixa Porky's e American Pie com ciúmes.
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Injeção de ânimo: The Fighter, dir. David O. Russell, USA, 2010
Filmes de boxe são geralmente sobre superação e este não é diferente. Vi esse filme numa fase difícil da minha vida e saí do cinema revigorado. Todo o elenco é muito bom, mas Christian Bale é um ator excepcional. David O. Russell tem um vigor de moleque e é um cara do qual já sou fã há algum tempo. Já que na vida real fica difícil, nada como ver um bom personagem resolvendo seus problemas metendo a porrada em geral.


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Maestro: Terrence Malick
Malick era daqueles diretores que eu sempre pensava: "quase". Seu primeiro filme que vi foi Além da Linha Vermelha/The Thin Red Line. A sequência inicial numa tribo é magistral. A paixão do diretor pela natureza é transplantada para a tela de uma forma linda. Mas, ficou por aí. Vi Badlands com Martin Sheen e fiquei com a mesma impressão: bom, mas não chega a ser uma grande obra. A Árvore da Vida acabou com essa sensação. Acho curioso que muitos disseram que era um filme experimental. Não tem nada de experimental. O filme não poderia ser mais clássico. Narrativa forte e consistente apoiada por um Brad Pitt cada dia melhor. Já virou cult. Fui atrás de outros filmes de Malick e vi Days of Heaven com Richard Gere (meu ídolo dos anos 80). Outro esplendor. Terrence Malick é gênio.


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A Obra Prima: Incendies, dir. Denis Villeneuve, Can/Fra, 2010
Um orfanato. Crianças tendo suas cabeças raspadas ao som de Radiohead. A câmera se movimenta lentamente. Que força. Que poder. A trama de dois irmãos gêmeos que têm que encontrar seu pai a pedido de sua falecida mãe. Palestina, violência, paixão, estupro, emoção. Um épico no médio oriente filmado com a agressividade de planos abertos ao extremo e close-ups torturantes. Um filme que dói. Um filme que alimenta. Maravilhoso.


Não, eu infelizmente não vi a Pele que Habito. Almodóvar por si só já seria uma categoria.

sábado, 17 de dezembro de 2011

O MeLHOr e o PioR


Em uma cena do filme City Slickers (Amigos, sempre Amigos), os três companheiros do título contam o melhor e o pior momento de suas vidas. O personagem de Bruno Kirby conta o melhor momento de sua vida: farto de ver seu pai espancando sua mãe, ele acerta uma paulada no patriarca e expulsa-o de casa. Ele manda o pai nunca mais voltar. Os outros dois amigos ficam receosos de perguntar qual é o pior momento da vida dele. Afinal, se algo tão trágico foi o melhor momento de sua vida, imagina qual seria o pior momento?
Um deles finalmente se atreve e pergunta: "E qual foi o pior momento da sua vida?"

"O mesmo", ele responde.

2011 foi assim. O melhor e o pior.
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Depois de ser abandonado pela mulher que ama e impossibilitado judicialmente de ver a filha, o personagem de Gael Garcia Bernal em El Pasado, vai morar com o pai. Ele fica largado no sofá, vendo televisão, sem tomar banho. O pai, já em idade avançada, decide mudar-se para outra cidade. Gael pede para que o pai o leve junto. Promete lavar as roupas, limpar a casa e outros serviços domésticos. O pai olha para o filho com imenso desgosto e diz-lhe que não. O patriarca sabe que o filho precisa sair da depressão e buscar um objetivo útil da vida. E sabe também que sustentando seu filho de forma humilhante, não estará ajudando. Mas, mesmo que benéfica, a recusa não deixa de ser um duro golpe. A ideia do filme é excelente (sobre um cara que tem uma dependência extrema em relacionamentos afetivos). O livro no qual o filme se baseia deve ser uma obra interessante.
O ser humano traça metas para sua vida. Da mais simples, como comprar uma bicicleta, até a mais complexa, como tomar uma atitude que transforme o mundo. Me identifiquei muito (guardadas as devidas proporções) com o personagem de Gael. Valeu ter visto o filme só por causa dessa cena. Diversas vezes vi o caminho, que construía para atingir um objetivo, se ruir aos meus pés. Outras vezes atingi o objetivo mas não consegui segurá-lo em minhas mãos (talvez o mais duro de engolir).
Meu casamento acabou.

2011 foi assim. O melhor e o pior.
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Ferocidade entre a Urbe e a Flora ganhou dois prêmios de melhor filme. Os primeiros da
minha carreira. Ouvi meu nome ser chamado para receber o prêmio do júri popular no palco de Cuiabá. Ouvi elogios ao filme de diversos cineastas no festival de Buenos Aires. Tive o prazer de ouvir os aplausos do público ao lado do meu pai no festival de Vitória. Sumário: Ferocidade foi selecionado para 15 festivais nacionais e internacionais e ganhou dois troféus.
Meu melhor momento cinematográfico veio junto com a abertura oficial da minha produtora Krakatoa e três projetos de longa metragem para o ano que vem.

2011 foi assim. O melhor e o pior.
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Não tento esquecer os momentos ruins. São eles que me ensinarão a lidar com outros momentos negativos no futuro. Tento segurar o entusiasmo exacerbado em relação aos momentos bons. São eles que me manterão em cima do cavalo.

A dor de terminar um relacionamento. A alegria de viajar e ser "artista". A tristeza da solidão. O orgulho de escrever como nunca.
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2012 será bom e mau. Mas, acima de tudo, será um ano feliz.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

QUAndo a estética tem conteÚDO...ou é COOL

Ao trocar mensagens com uma amiga, ela me relatou que tinha terminado um curso de visagismo. Na minha ignorância, dei um google e li a seguinte descrição: "Visagismo é a arte de criar uma imagem pessoal que revela as qualidades interiores de uma pessoa, de acordo com suas características físicas e os princípios da linguagem visual (harmonia e estética), utilizando a maquilagem, o corte, a coloração e o penteado do cabelo, entre outros recursos estéticos." Desde que o mundo é mundo que as pessoas tentam imprimir suas personalidades através de elementos estéticos. Um cara de bem com a vida pode colocar uma camisa colorida (às vezes até inconscientemente) para representar esse estado de espírito, assim como uma pessoa deprimida pode se vestir de preto da cabeça aos pés.
No Rio de Janeiro, noto que nessa busca incessante por essa imagem pessoal, as pessoas se parecem cada vez mais. A gatinha no quarto se arrumando: "Sou periGUETE, então vou colocar essa sainha de babados, salto alto com sola colorida, blusinha folgada com decote generoso". Ela chega na Baronetti em Ipanema e se encontra com outras 100 meninas com os mesmíssimos trajes.
Em Tóquio, devido à semelhança física, os japas buscam desesperadamente mudar a cor de seus cabelos, usar roupas de tons berrantes e sapatos esdrúxulos. Com tamanha excentricidade e no meio de tantas cores, eles acabam ficando ainda mais iguais entre si.
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São poucos os cineastas que conseguem imprimir um estilo reconhecível. Se eu assistisse a um

filme inédito de Sergio Leone, reconheceria seu estilo sem que tivessem que me dizer nada. A maioria dos diretores são escravos de suas histórias e imprimem apenas o que existe de óbvio nas páginas do roteiro. Fiquei bastante impressionado com Danny Boyle quando li o livro que ele adaptou para fazer Trainspotting. As sequências mais geniais do filme, não estavam no livro, eram criações dele.
Numa preguiçosa viagem no sofá, me perguntei qual era o plano que caracterizava os curtas que já fiz. Eu tinha uma marca estética?
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Como num relâmpago lançado por Odin, veio à minha cabeça Quentin Tarantino (sempre ele). Todos os filmes dele têm o já apelidado trunk shot (plano do porta-malas). Um personagem abre o porta-malas e a câmera é posicionada dentro deste. Em Inglourious Basterds ninguém abre porta-malas, mas mesmo assim ele posiciona a câmera no chão e faz o plano para não perder a marca.
Nos meus primeiros curtas, isolado no inverno nova yorkino, eu resolvi sempre colocar a bandeira brasileira em quadro. Queria imprimir uma marca. Representava o lugar de onde eu vinha, mas sinceramente, era um simbolismo meio óbvio. Quando rodei o Ferocidade, sequer me ocorreu colocar a bandeira no filme. Só me toquei quando minha mãe mencionou que desta vez não tinha bandeira (só fã mesmo para notar).
O trunk shot do Tarantino é simplesmente estético, não tem qualquer valor narrativo. É simplesmente cool.
Martin Scorsese tem uma marca registrada já muito copiada. Ele aproxima a câmera rapidamente de um ator que vai em direção à ela. Esse plano é sempre associado a um momento de ansiedade, pressa ou euforia do personagem. Ele tem uma variação dessa técnica em que ele também aproxima a câmera do ator, só que lentamente e com o ator no mesmo lugar. É como se estivessemos entrando dentro da cabeça do personagem e sem que ele precise dizer nada, sabemos exatamente o que ele está pensando (na cena de Goodfellas abaixo, o personagem de DeNiro decide matar um chato).
Claro que ter o Robert DeNiro e uma PuTa soundtrack ajuda. No caso de Scorsese, o seu
dolly shot não só tem uma beleza estética, como tem conteúdo.
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É óbvio, CACeta! A minha marca registrada era o plano sequência. Não só por ter feito o último curta assim, mas por sempre ter trabalhado com longos takes.
Questionaram-me se rodar o roteiro em plano sequência não seria apenas uma opção estética que prejudicaria o desenrolar da história. Tinha certeza que não. Bolei o roteiro para isso. A pergunta era pertinente, pois uma coisa era ter um longo plano sequência nos meus filmes anteriores (que poderiam ser encarados apenas como estéticos); outra coisa bem diferente era fazer um filme inteiro em plano sequência e correr o risco de se tornar uma estética oca. Arrisquei e foda-se. O dinheiro é meu. Tô pagaaaaaaando.

Sorriso de canto de boca. Visagismo Cinematográfico. Eu TENho uma MARca!

NOTA- Buscando uma imagem representando estética para ilustrar o post, achei essa imagem baseada em Vertigo, do Hitchcock. Se você fixar os olhos no centro e se inclinar para frente e para trás, vai reparar que a imagem é 3D.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

A Ressaca - não se mexe em time QUE tá GaNHAndo

Nem me lembro da última vez que assisti a uma comédia no cinema. Nós, pseudo-intelectuais cinéfilos, temos a mania que a comédia é um gênero menor. Assistimos, rimos, mas não damos valor. É que nem pagode: ouço, mas não compro CD. Geralmente assisto comédias em casa, em dvd ou na tv a cabo. Existe uma teoria que a câmera não deve se mexer muito ou que a luz não pode ser muito contrastada para que não se perca a essência das piadas. E realmente, a teoria se aplica na maioria dos casos. Comédias não são técnicamente elaboradas. Não é a toa que as sitcoms são plano/contra-plano num ambiente muito bem iluminado e sem sombras.
Dentre os mais de 100 filmes (na coluna de obras primas à direita) que eu considero essenciais, só se enquadram dez comédias. Cinco são do Charlie Chaplin, duas do Wes Anderson, uma do Woody Allen (não, não é Noivo Neurótico), uma do Mel Brooks e Napoleon Dynamite, a comédia mais cult de sempre.
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Este ano assisti (na tv a cabo do meu pai) Se beber, não case. O título em inglês é The Hangover (A Ressaca) o que me fez perguntar: Para quê mudar o título se o original é a perfeita descrição do que acontece no filme? Existe uma tradição global de alterar radicalmente os títulos originais de filmes, mas acho que o Brasil é campeão em tal quesito. No passado, se alterava de forma até poética. The Wild Bunch (algo como O Bando Selvagem) virou Meu ódio Será sUa Herança. Algo simples como Giant (Gigante) se tornou Assim caminha a Humanidade.
Eu morei em Portugal por 10 anos e sei que os portugas também aprontam das suas. Die Hard virou Assalto ao Arranha-Céus. Quando surgiu a continuação, que não se passava num arranha-céus, virou Assalto ao Aeroporto. Com o terceiro, os tradutores desistiram e chamaram-no de Die Hard 3 mesmo. Uma vez a revista MAD sacaneou que em Portugal Um Tira da Pesada se chamou Um Policial com Excesso de Peso. Os lusitanos se vingavam sacaneando a tradução brasileira de The Godfather (O Padrinho) que aqui se chama O Poderoso Chefão.
Hoje em dia, a imaginação fértil dos tradutores deu lugar à imbecilidade. Inception vira A Origem, The Kids are all Right vira Minhas Mães e Meu Pai e The Hangover vira Se Beber, NãO CASe.
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Apesar de saber que The Hangover 2 seria uma repetição da fórmula do primeiro mudando o cenário e algumas piadas, resolvi sair de casa rumo ao cinema. Saí relaxado do filme. Ri onde tinha que rir. Sem pretensão.
No caminho de volta, percebi que não tinha saído para ver uma comédia. Tinha saído para ver um buddy movie (filme de amigos, parceiros), sub-gênero popular em todos os gêneros. Acho que gostei tanto do primeiro Hangover porque parecia um O que aconteceria se os personagens de Stand by Me (Conta Comigo) crescessem? Muito mais avacalhado, claro. Sempre sonhei em ter aquela amizade lúdica, de pessoas que dariam e arriscariam tudo por você. Queria ser um Goonie. Queria ter um Doc Brown do De Volta para o Futuro para chamar de meu. Já tive grandes amizades, mas todos acabaram se esvaindo entre brigas ou pela distância dos oceanos. De tempos em tempos faço novas amizades, mas elas acabam desaparecendo por um motivo ou outro. Às vezes não temos tempo, não telefonamos ou estamos demasiado envolvidos com um novo amor que esquecemos do resto do mundo.
No entanto, descobri que apesar de não ter uma amizade fixa por décadas como nos filmes, quando reencontro certas pessoas, parece que o tempo não passou. Essas são as verdadeiras amizades. O tempo ou a distância nos separou, mas o reencontro é como se nunca tivessemos nos separado.
Voltei a pensar em algumas piadas de The Hangover 2 e ri enquanto caminhava. As comédias podem pertencer a um gênero menor, mas não consigo viver sem elas.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Fernando Meirelles deve ter gostado...

Ferocidade entre a Urbe e a Flora já foi selecionado e exibido em: Oaxaca Film Festival (México), 14a Mostra de Tiradentes, BigPond Adelaide Film Festival (Austrália).

Ainda será exibido nos Cine Fests Petrobras de Nova York (Junho), Vancouver, Londres, Buenos Aires e Montevidéu. A curadoria de seleção desses festivais inclui Fernando Meirelles, diretor de Cidade de Deus. Para quem sofreu no primeiro semestre de 2010 por nenhum festival ter selecionado o filme, não está nada mal.

Enquanto o circuito de festivais não acaba (impossibilitando postar na internet), dá para dar uma sacada neste teaser.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Celebração à morte - Bin Laden ao mar

Num dos 7 restaurantes que trabalhei em NY (fui dispensado de um, pedi demissão em outro e fui escorraçado de 5) tinha um patrão verdadeiramente Darth Vaderiano. Ele comia restos do lixo e exigia que as almôndegas que voltassem das mesas fossem dissolvidas no molho à bolonhesa (não vou entrar em detalhes, como por exemplo o fato de todo restaurante ter baratas, para não causar um boicote a restaurantes pelos leitores deste blog). Adorava um bullying nos funcionários e jogava um contra o outro. E pior dos piores, sendo um judeu sem família, não permitia que fechássemos o restaurante (às moscas) mais cedo em pleno dia 24 de Dezembro. Ele era muito gordo e se vestia completamente de preto. Obviamente, quando ele entrava, alguém sempre entoavaThe Imperial March, tema de Darth Vader.
Tirando o latino aqui, todos os garçons eram americanos e todos odiavam com veemência este ser chamado Mike - seu verdadeiro nome é Myron, mas como soava muito judeu para um proprietário de cantina italiana, só permitia que o chamassem de Mike. Acho que com a exceção de um ou outro, todos já tinham proferido algum comentário sobre ele estar melhor debaixo da terra. Alguns pegavam mais pesado e diziam que o matariam pessoalmente se soubessem que não iriam para a cadeia. Tinha uma frase num boteco em frente ao restaurante que dizia: "Algumas pessoas só não estão mortas porque é ilegal matá-las". Uma vez ouvi uma história que um garçon já demitido colocava diariamente uma colher de sal no remédio contra hipertensão do Mike. Uma tentativa de assassinato lenta, mas Mike continuava firme e forte e o garçon já era.
Não conseguia entender (não queria entender) como alguém poderia desejar a morte de alguém por pior que aquela pessoa fosse.
Não me surpreendi com as demonstrações de euforia e celebração em NY após o anúncio do assassinato de Osama Bin Laden. Pessoas bebendo, comemorando pelas ruas como se o NY Giants tivesse ganho a Superbowl. Se não soubesse o contexto, era exatamente isso que lembrava os sorrisos novaiorquinos.
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Quando me encantei pelo Charles Bronson ("aquele do bigodinho") no início da adolescência
depois de ver The Great Escape (Fugindo do Inferno) e Dirty Dozen (Os Doze Condenados), meu pai me falava sobre um filme dele chamado The Mechanic. Não encontrava em nenhuma locadora aquele filme obscuro, co-estrelado por Jan-Michael Vincent (a aposta de galã dos estúdios que nunca vingou e que é mais lembrado por papel na TV em Airwolf, Águia de Fogo no Brasil [???]).
Um dia, meu pai chegou com O Mecânico (em Portugal, no Brasil se chamou Assassino à Preço Fixo). Este ano, tivemos um remake com o Jason Statham, que não tem o bigodão suntuoso do Bronson, mas tem uma carequinha reluzente para compensar. A trama é simples: assassino profissional à beira da aposentadoria aceita treinar jovem no ofício. Não precisa ser um gênio para saber o que acontece.
Sempre que penso em Osama Bin Laden, lembro desse filme. Soviéticos no Afeganistão, jovem Bin saudita milionário rebelde, guerra fria, CIA fornece armas e treinamento para Bin e galera "da Base", mais conhecida como al-Quaeda. O jovem Bin passa de pupilo dos EUA a professor dos terroristas, o feitiço vira contra o feiticeiro e o resto todos sabem como acabou. De aliado a rival. Seria exagero dizer que os EUA são o Dr. Frankenstein e Osama, sua criatura?
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No John's Restaurant de Mike, eu presenciei os maiores furtos e pilhagens da história da hotelaria. Cerveja consumida a rodo no final do expediente, garrafas de vinho levadas para casa, molho de tomate, papel higiênico. Tinha um colega meu que já nem ia ao supermercado. Descia para o porão e dizia: Going shopping. Outra lenda dizia que o cunhado do Nick (um garçon insuportável) pagou a faculdade das duas filhas tirando dinheiro do caixa do John's. Eu me contentava em levar camarões VG.
Como se não bastasse o Darth Vader, ainda tinha o Nick, o outro sócio, mas é melhor falar dele em outra postagem. Os dois se completavam em seus jogos de desprezo e humilhação aos funcionários. E os funcionários revidavam roubando tudo que vissem pela frente. Muitos diziam que não era roubo, que era justiça. Tá bom, eu acreditava. E levava meia dúzia de camarões. A retaliação nunca tem fim até que uma das partes ceda.
O restaurante onde eu fui mais bem tratado, se localizava no West Village e se chamava Alfama. Comida portuguesa divina. Tinha um patrão mais chatinho, mas o outro era super educado. Nesse restaurante quase não aconteciam furtos. Lembrando que furto de birita em restaurante é igual presença de barata. S-E-M-P-R-E tem. Onde se era açoitado, roubava-se de tudo. Onde se era acariciado, roubava-se só um pouquinho. Quer dizer, fazia-se justiça.
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Keep the River on Your Right é um documentário sobre um antropologista americano que é convencido pelos diretores do filme a voltar a certos lugares inóspitos que ele visitou na juventude. Ele vai tranquilamente para Papua Nova Guiné onde ele teve um caso com um nativo. No entanto, ele se recusa a ir ao Peru onde visitou e morou com uma tribo. Era 1955 e além de Tobias Schneebaum ser um antropologista, ele era também um pintor. Ele chegou a uma tribo na Amazônia e foi bem recebido, morou com os nativos. Uma bela noite, os índios se prepararam para caçar e obrigaram o pintor a ir com eles. Eles invadiram uma outra tribo e mataram seus rivais. De acordo com a tradição, cozinharam e comeram seus inimigos. Aos prantos, Tobias foi obrigado a comer também. Ele nunca mais pintou. O subtítulo desse filme é A Modern Cannibal Tale.
A alegria de ver pessoas com bandeiras em punho, rindo devido ao assassinato de uma pessoa, não me choca. O presidente da Galoucura participou do espancamento que matou um torcedor cruzeirense. Mataram um cara e comemoraram por causa de futebol. Se somos capazes disso, claro que vamos comemorar a morte do terrorista Nº 1. Acho estranho, mas não surpreendente. Se eu postasse no Facebook que minha avó morreu e alguém clicasse em "curtir", ia achar estranho.
Me sinto na obrigação de sentir algo. Acho que seria mais apropriado dizer que sinto vergonha. Não dos americanos, afinal basta ver a cena do genial doc Ônibus 174 para constatar o desejo de sangue brasileiro quando a população parte para cima do sequestrador tentando linchá-lo. Ou o caso da Galoucura acima. Acho que a vergonha é do ser humano, eu incluído. Afinal, não matei ninguém, não comemorei a morte de ninguém, mas comi muito camarão VG.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Uma viagem alfacinha dum Carioca em Minas de Nova York



Li/Ouvi em algum lugar que para ter uma identidade nacional ou mesmo global, o indivíduo precisa ter uma identidade regional. Ou seja, só respeitando e gostando de suas raízes natais, ele poderia apreciar e defender o resto. Sempre me considerei um apátrida. Regionalismo então, que babaquice. No entanto, é difícil não defender Minas Gerais em detrimento do resto. Ou não defender o Brasil duma afirmação idiota feita por um gringo. Ou não proteger o nosso planeta dum bando de otários que podem nos conquistar porque têm mais dinheiro.
O clipe acima representa a nova New York, New York imortalizada por Frank Sinatra. Jay-Z e Alicia Keys deram um retoque moderno na inaltação da cidade que nunca dorme. É comercial? É pop? É metido a besta? É cafona? É. Mas, é bom. "The lights will inspire you", as luzes vão te inspirar. Devo dizer que é verdade. Nunca me deparei com tamanha manifestação de informação, de cultura, de loucurrra e caretice. Ideias pipocavam na minha cabeça a todo instante. A praia carioca me prostrou.
*****
Jon Voight coloca seu chapéu caipira interpretando o protagonista de Midnight Cowboy. Ele ouviu dizer que em Nova York só tem viados e que teria um futuro como gigolo na cidade que nunca dorme. Com poucos dólares no bolso, ele chega na rodoviária e descobre rapidamente que seu sonho era tão consistente quanto a fumaça de seus cigarros.
Midnight Cowboy é uma das maiores obras primas da sétima arte. A frustração dum sonho ingênuo. É também a melhor interpretação de Dustin Hoffman de todos os tempos. Contrariando o Method do Actor's Studio, ele não quis saber de interiorizar a dor para o mancar de seu personagem. Colocou pedrinhas dentro do sapato e a dor incomadava-o a ponto de mancar.
Cheguei em NY sem intenções de me tornar um michê, mas meu objetivo era similar ao do personagem de Jon Voight: conquistar Nova York. "If you can make it there/you can make it/anywhere" (Se você conseguir lá/você consegue/em qualquer lugar).
Não foi bem assim. Analisei através de comentários e experiências que todos os grandes diretores de fora dos EUA, foram reconhecidos primeiramente por filmes em seus países natais. Daí, vieram convites para ir a Roma. Nova York é a Roma do milênio. Se gostarem lá, gostarão em qualquer lugar. Não por causa dos americanos (que são cada vez mais minoria na cidade), mas por causa de seus óculos globais. Todos estão representados ali.
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Reclamo para cacete do Rio de Janeiro. Me criticam por isso. Como se o fato de ser um forasteiro não me permitisse detonar e implodir minha opinião. Normal. Sempre fui "estranja".
Sempre existe e existirá uma sacaneada e xenofobismo direcionado aos outsiders. Tô acostumado. No Brasil era português e em Portugal era brasileiro (como meu amigo Roberto Leal). Em New York era um latin american. E no Rio, sou mineiro. O rótulo está sempre presente quando somos de fora ou somos diferentes.
Se esquecem que voto e pago impostos aqui. Que escolhi essa cidade para viver.
Emeric Pressburger nasceu no império Austro-Húngaro e tornou-se famoso por co-dirigir filmes de enorme sucesso com Michael Powell na década de 40. The Life and Death of Colonel Blimp e Black Narcissus estão sempre nas listas de melhores filmes de todos os tempos entre críticos americanos. Uma vez, ele disse que se sentia mais britânico que os próprios britânicos. Afinal, ele não era obrigado a ser britânico por nascimento, ele o fez por escolha.
Sou viçosense, mineiro, alfacinha, new yorker e carioca da gema. Me deixem ser o que eu quiser, independentemente do Galo cair para a segunda divisão ou não.

sábado, 2 de outubro de 2010

Design Feroz

Cartaz temporário para o festival de cinema de Oaxaca, México. Juliana, que trabalha na Faro Filmes, pintou meu conceito pela mágica do Photoshop. Good job!

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Sequencial plano de aniversário!!!

Um blog que cada vez mais se especializa na grande paixão: o plano sequência.

Mais um clipe dos OK Go - White Knuckles

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Calvário Feroz: O insustentÁVEL PeSO da RejeiçÂO. Parte XI

O que faz um diretor como o Kenneth Branagh dirigir o novo filme do super-herói Thor? O que faz Woody Allen sair de Manhattan? Grana, mas não só.
Branagh dirigiu Hamlet (1996), colocando na tela o texto integral da peça num filme de 4 horas. Elogiadíssimo. No entanto, o filme custou 18 milhões de doletas e arrecadou 4.

Woody Allen tem um público fiel, mas escasso. Seus filmes sempre fizeram sucesso nas grandes metrópoles, mas ficaram desconhecidos para o resto do mundo. Ah, mas e Annie Hall (o título no Brasil, Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, é um pouco indigesto), o maior sucesso de Allen que ganhou até o Oscar? Custou 4 e arrecadou 38 milhões. Um lucro considerável, mas uma arrecadação pífia se comparado a verdadeiros blockbusters. No mesmo ano, foi lançado Star Wars que arrecadou 35 milhões só no fim de semana de estréia (acumulando uma bilheteria final de 460 milhões só nos EUA). Sacanagem comparar Star Wars com Annie Hall? Outros filmes de 1977 que arrecadaram mais de 100 milhões: Os Embalos de Sábado à Noite, Encontros Imediatos de 3º Grau e Agarre-me se puderes (Smokey and the Bandit com o Burt Reynolds).

Creio que em algum momento, por mais que a crítica elogie, o cineasta sente necessidade de agradar ao grande público. Afinal, os filmes são feitos para serem vistos. Se Rodin tivesse esculpido todas as suas estátuas e as tivesse deixado em um galpão, escondidas dos olhos do público, seriam essas obras consideradas arte? Sempre questionei se pode se chamar de arte, uma obra que é apenas admirada por seu autor... Pode a arte existir sem público?

Muitos cineastas independentes não têm o menor problema (muito pelo contrário) em fazer filmes para nichos, para públicos específicos. Outros, não.

Um exemplo recorrente no Brasil são alguns atores de teatro denso que vão fazer novela. Claro que tem a ver com dinheiro, mas também tem muito a ver com reconhecimento. Em algumas festas ambientadas nas madrugadas surradas do Rio, convivo com alguns deles, que hoje são galãs de novela das oito. Por mais que eles comentem seu desprezo pelas narrativas protagonizadas na Globo, observo que sentem um intenso prazer ao serem reconhecidos, elogiados, assinando autógrafos. Artista gosta de aparecer. Ponto final.
*****
Enfrentando as brumas burocráticas dos festivais de cinema, já enviei o meu último curta, Ferocidade entre a Urbe e a Flora, para 35. Rejection Rejeição Denied Negado Verboten. Ver listas e listas de selecionados serem divulgadas e não ver o seu nome, é frustrante. É não atrás de não! Dizem que no início de carreira, quando Picasso não conseguia vender um quadro a um marchand, ele jogava-o no lixo assim que saía do atelier.
Nunca arremessei um Dvd pela janela ou quebrei o HD do meu computador após a rejeição de um festival. No entanto, já me comportei de forma reclusa e preguiçosa ao mandar os meus dois curtas anteriores para pouquíssimos festivais. Era como se cada rejeição significasse que ir ao correio enviar mais um filme fosse uma perda de tempo. Sola de sapato gasta à toa.
O anterior, Zero Hora, foi selecionado pelo festival de Brasília. Fiquei orgulhoso e não mandei o filme para mais nenhum festival. Tava cansado de ouvir NãO.
Ferocidade estava empacado. O filme foi exibido na MOSCA (Mostra audiovisual de Cambuquira), mas sem demérito à mostra, antes pelo contrário, não é um festival competitivo.
De oito festivais que deram resposta de seus selecionados, todos tinham subjetivamente barrado o filme. Os olhos brilham e a energia irradia ao ouvir boas novas. Ferocidade entre a urbe e a Flora foi selecionado para o Festival internacional de Oaxaca, no México. Um festival com prêmio alto e que reunirá uma interessante comunidade cinematográfica.
A felicidade bateu à nossa porta. Agora, podem falar não à vontade.

Festival de Oaxaca: www.oaxacafilmfest.com/

sábado, 11 de setembro de 2010

Vivendo o filme CaTástroFE


Sobressalto. Atrasado. Copo de cálcio. Porta fora e metrô.
Entro pela sala de aula. Cadê o professor?
Um avião colidiu com o World Trade Center, disse o colega.
Tinha passado em Tribeca há pouco, quando ainda no trem.
Outro aspirante a cineasta abre a porta da sala. Um segundo avião acaba de colidir, diz ele.
Todos se dirigem para uma das salas de projeção. Telão grande, capacidade para 200 pessoas assistirem os replays da CNN. O avião bate. De outro ângulo. Contra plongé. O outro avião se espatifa. Fumaça. Gritaria.
Viro para um japonês da minha turma. Eu tinha ajudado a colocar o curta super 8 dele nas projeções de final de ano. Ele, grato, me ofereceu uma carona que recusei para não dar trabalho. Dessa vez era diferente. Cobrei a carona daquela noite e ele fez questão de me levar. A fumaça de Manhattan era vista de qualquer ponto do Brooklyn.
*****
Quando morar em Nova York era apenas um sonho e eu ainda era um turista, passei pelo túnel que liga a New Jersey. Meu pai divagou numa ideia para um filme: e se o túnel explodisse e as pessoas ficassem presas circundadas por água (o túnel atravessa por baixo d'água). Uns anos depois essa mesma ideia foi usada em Daylight com o Stallone. Eles basearam muitas das sequências de ação num filme chamado O Destino do Poseidon com o Gene Hackman (que por sua vez teve um remake em 2006 chamado de Poseidon).
Os filmes catástrofe tiveram o seu auge na década de 70 que contou com os sucessos Inferno na Torre, Terremoto, Aeroporto 74 e o próprio Poseidon Adventure. Os títulos explicitavam onde ocorreriam a mais nova catástrofe repleta de efeitos especiais.
Não foram estas as imagens que se passaram por minha cabeça, no entanto.
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Pensa-se no que está acontecendo. Não foi preciso ser um gênio para deduzir que a probabilidade de dois aviões baterem por acidente nas torres gêmeas era reduzida.
Tão atacando essa porra! Tô no Brooklyn College, subúrbio, sem monumentos de grande importância à minha volta. Rota até a minha casa em Queens, subúrbio. Se eu morasse na Times Square ou perto do Empire State Building, só apareceria por lá no dia seguinte. Nunca foi tão seguro morar no subúrbio.
O Japa acelerou para cruzar Brooklyn/Queens. Dois colegas vinham comigo no banco de trás e outro ia no passageiro. Um cara filmava as torres queimando com uma Sony VX2000 enquanto todo mundo falava ao mesmo tempo em japonês. Eu ficava quieto, olhando aqueles dois charutos de concreto.
Uma torre desmoronou. A câmera filmando. Takahiro, o motorista, diminuiu a velocidade para poder olhar. Já não viu. Foi muito rápido.
*****
Confesso que fiquei excitado pelo enxaropado Titanic. Para mim tinha valido a pena esperar todo aquele romance de três horas só para ver o navio afundar. Os efeitos foram de grande realismo e me impressionaram. Eu devia ter uns 18 anos e ia constantemente a esses filmes para acompanhar a evolução tecnológica dos efeitos. Armageddon, Twister, Inferno de Dante. Acompanhava tudo isso. Sempre na telona, claro.
No entanto veio uma regressão e os efeitos viraram defeitos especiais. O uso da máquina operante computadorizada ajudou a cortar custos ao explodir virtualmente um caminhão que antes era explodido na real. Quando se misturou a filmagem real com o virtual no fim da década de 80, obteve-se resultados extraordinários. Mas, hoje, os grandes estúdios americanos querem fazer tudo no computador e tornam a diagese pouco convincente. Diagese significa a realidade da narrativa compreendida de forma externa (essa veio da época das minhas aulas de Film Theory).
Os efeitos de hoje em dia não convencem e filmes catástrofe como 2012, se tornam entediantes (bem fraquinha aquela cena do Cristo desmoronando).
*****
O carro atravessava a highway e com muita sorte passávamos no momento exato que a polícia fechava os acessos. Passamos uns cinco até que não teve mais jeito e tivemos que dar uma baita volta pelo norte de Queens.
Cheguei em casa. A Dora, que dividia o apartamento comigo, estava vidrada na televisão. Sentei ao lado dela. Ficamos um tempo em silêncio até ela dizer - Vim a pé para casa. Andei pra cacete. Eles fecharam o metrô e as pontes. Voltei a fumar de tão nervosa.
Voltamos ao silêncio. Eu acendi um cigarro. O cheiro da fumaça do tabaco era fraca em comparação ao cheiro indescritível que vinha do World Trade Center, que estava do outro lado do rio. Aquele cheiro permaneceu em todos os cantos da cidade por uma semana. O olfato fazia com que todos fizessem parte da tragédia.

Astoria, Queens, 11 de Setembro de 2001

Quadro abstrato do Poseidon: http://www.cinemademerde.com/Beyond_Poseidon_Adventure-abstract.gif

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Calvário Feroz: O SilêNCIO. Parte X

O siLêNcIo do estúdio cessou quando a gaita emitiu seu rugido. Começava a gravação derradeira da trilha sonora do meu último curta Ferocidade entre a Urbe e a Flora.
Meus dois curtas anteriores tinham trilha sonora alta, recheados de efeitos sonoros abrangentes. Quando os rodei, eu frequentava alguns bares do circuito underground de rock'n'roll de Nova York. A maioria desses shows era no Brooklyn. Eu acompanhava constantemente duas bandas: The Nervous Cabaret e Black Cat Revolver. Tocavam em bares em porões, em casas improvisadas (Asterisk) e nos clubs do Lower East Side (Arlene Grocery ou Bowery Ballroom). Desses mesmos bares surgiram bandas como The Strokes. Estava sempre envolvido por rock'n'roll de extrema qualidade. E nesse meio, consegui a música do Nervous Cabaret para o meu curta Out of the Prohibition Era e do Giraffes para o curta seguinte, Zero Hour.
Neste, Ferocidade entre a Urbe e a Flora, optei por uma tropa de cigarras e uma gaita esvoaçante e repetitiva. Repetitiva como o tema de Tubarão/Jaws e chatinha como a nota do insistente piano De Olhos bem Fechados/Eyes Wide Shut. Mas a referência mesmo, como não poderia deixar de ser, foi Era uma vez no Oeste/Once Upon a Time in the West e Três Homens em Conflito/The Good, The Bad and the Ugly de Sergio LeOne. Charles Bronson tocava a gaita em Era uma Vez... e Pedro Fasanello tocou para o Ferocidade. Trilha de ótima qualidade do Sr. Fasanello.
No filme, o som das cigarras gira 360º à volta do protagonista e a gaita estraçalha a vegetação da floresta da Tijuca, onde o filme foi rodado. Entre o canto da cigarra e as notas da gaita... existe silêncio.
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O curta teve seu áudio finalizado na Casa de Som - que apoiou o filme - e suas imagens concluídas e computadorizadas e dvdzadas na Faro Filmes - que produziu el filme.
Dedos martelando o mouse através de ilimitada pesquisa na internet de festivais para inscrever o benedito filho curta-metragem. Lista de Gramado a Seul, de Paulínia a Sofia. Cannes já fui recusado, muito obrigado. Gramado? Passar bem. Mas a esperança é a primeira que morre ao contrário.
Meu professor dizia na faculdade que ao inscrever um curta em dez festivais e ser aceito em um deles, já era uma ótima média. Tendo já inscrito anteriormente dois curtas em alguns festivais, e sentido muita rejeição, ganhei alguma experiência em o que não fazer - tanto psicológica como fisicamente. No entanto, o que importa é que continuo mandando o filme pelo mundo afora e esperando para ver se minha média está boa. Fly DVDs! And bring me good news!
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O silêncio entre gaita e cigarra é preenchido pelo murmúrio, pelo som da surpresa, pelos risos de nervosismo, pelo olhar da população. Um público que não tem cinema em sua cidade, mas que uma vez por ano, conta com a Mostra Audiovisual de Cambuquira, vulgo, Mosca. Um povo que não está acostumado a assistir um filme na companhia de tantas pessoas. Ingenuamente, expressam com muita emoção, os sentimentos que nutrem ao assistir as imagens da tela prateada. Claro que tem vários adolescentes engraçadinhos que fazem um barulho dos capetas tentando que seus colegas riam da palhaçada. Mas é legal lembrar de como o público de Cambuquira, interior de Minas, se comportava quando a mostra começou há 6 anos atrás. Era bem mais falante. O público Cambuquirense, hoje em dia, pede silêncio e se concentra mais nas histórias. A verdade é que eles entram na história.
Ferocidade entre a Urbe e a Flora tem três momentos chaves nos seus curtos 13 minutos. No primeiro, a audiência fez o "oooooooh" da surpresa. No segundo, o público mesclou risos sacanas com o "aaaaaah" do choque. No terceiro, algumas risadas foram abafadas... pelo silêncio.
Mais um curta-metragem pronto e sendo exibido. O ardor nas têmporas, o músculo contraído, a artéria nervosa e pulsante. Estou entre uivos da gaita e urros de cigarras. Ao silÊncio me recolho...
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Essa mostra, MOSCA, é organizada pela Ananda Guimarães e outras grandes amigas, que com muito suor levam cultura para essa cidade encantadora que se chama Cambuquira. Foi com muita honra que participei da MOSCA com o Ferocidade. Honra e pressa devido ao compromisso inadiável do Sr. Pedro Fasanello - trilheiro e diretor de arte do nosso curta - que acompanhou a mim e minha esposa, Laura, até o sul de Minas.
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Extra, extra, extra. Lembrando que a água mineral das fontes naturais de Cambuca é a melhor que já bebi (tem gás natural) e o pôr do sol vendo o voo livre dos paragliders é espetacular.
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Parabéns a Márcio Vito, o protagonista do nosso Ferocidade, que ganhou o prêmio de melhor ator coadjuvante no festival de Paulínia pelo filme 5 x Favela- Agora por nós Mesmos.
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quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Blu: um convite à euforia pela ArTe

Depois de algum trabalho, uma viagem NY/Europa, um certo desânimo, uma mostra de cinema e muito tempo jogado fora, eu volto a povoar este blog. Perdão pela ausência.

Um rio de criatividade passou pela minha vida e varreu essas imagens duma postagem facebookiana do eterno contribuinte Marcello Lima para as páginas replicantes deste blog que vos escreve.

Com vocês, Blu!!!

Se tiver uma conexão razoável, aconselho que assista em fullscreen.

Site do artista: BLUBLU.ORG

quarta-feira, 31 de março de 2010

Mais um plano sequência para a CoLeÇÃo

Todos os cineatas, cinéfilos e entusiastas comentam o plano sequência de abertura de El Secreto de sus Ojos, do argentino Juan José Campanella. Eu acabei de rodar o curta Ferocidade -entre a Urbe e a Flora, um plano sequência. Como tal, apresento um clipe em plano sequência com grande teor de dificuldade para que se divirtam sem cortes.



sábado, 27 de março de 2010

Fragmentos de um roteiro cinematográfico SOBRE os Nardoni



FADE IN.

EXT. FÓRUM - DIA

ROBERTO PODVAL, 50, ligeiramente acima do peso, vestindo terno impecável, anda em direção à entrada do fórum.

Uma multidão cerca Roberto, dificultando sua entrada no fórum.

Os jornalistas se aglomeram em volta de Roberto buscando a melhor imagem.

REPÓRTER GLOBAL
- Roberto Podval, advogado de defesa de Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá, acaba de chegar ao fórum onde acontece o julgamento. É grande o número de cidadãos e jornalistas em volta do advogado que tem dificuldade de chegar à entrada do fórum. Vamos tentar -

Um HOMEM, 38, porte físico avantajado, esbarra violentamente no REPÓRTER GLOBAL, 28. O homem fura a barreira de pessoas e aproxima-se rapidamente de Roberto.

Roberto arregala os olhos ao ver o homem se aproximando. Este, desfere um soco no estomâgo do advogado.

Assustadas, as pessoas se afastam dos dois. Os flashes disparam.

DOIS POLICIAIS se aproximam da confusão. O agressor se esgueira e desaparece na multidão.

Os policiais escoltam o advogado, empurrando as pessoas que atravessam seu caminho.

A testa de Roberto está encharcada de suor. Ele é quase uma marionete nas mãos dos policiais, que praticamente o carregam.

Desnorteado, Roberto consegue finalmente adentrar o fórum.

REPÓRTER GLOBAL
(olhando para a câmera)
- Como vocês puderam observar, o advogado de defesa do casal Nardoni foi agredido e teve grande dificuldade para entrar no fórum. As pessoas que se aglomeram na frente do recinto começam agora a entoar cânticos pedindo justiça. De volta ao estúdio. Sandra.

MULTIDÃO
- Justiça! Justiça! Justiça!

FADE OUT.

JUIZ MAURÍCIO FOSSEN (NARRAÇÃO EM OFF)
- Em razão dessa decisão passo a decidir que a pena seja imposta a cada um dos acusados em relação a este crime de homicídio pelo qual foram considerados culpados pelo conselho de sentença.

FADE IN.

EXT. FÓRUM - NOITE

REPÓRTER GLOBAL
- Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá são considerados culpados pelo homicídio da filha e enteada Isabella Oliveira Nardoni. O juiz Maurício Fossen continua a leitura da sentença e relata agora a pena do casal. O curioso é que a população que permaneceu na entrada do fórum durante todo o dia, ainda não se manifestou. Talvez devido ao jargão jurídico, a população parece ainda não ter entendido que o casal foi considerado culpado.


Um CIDADÃO, 60, ouve o que o repórter disse e reage.


CIDADÃO
(histérico)
- Eles foram condenados? Eles foram condenados! Eles foram condenados!


A multidão grita em uníssono. As pessoas levantam cartazes que clamavam por justiça. Idosas se abraçam. Adolescentes riem.


Fogos de artifício rompem os céus. A população comemora com alegria.


INT. CARRO DA POLÍCIA - NOITE


ALEXANDRE NARDONI, 45, abatido, algemado, observa os fogos pela janela do carro. Um POLICIAL, 35, está encostado ao carro. Ele observa ANNA JATOBÁ, 26, magra, algemada, entrando em outro carro da polícia.


Ela olha para Alexandre. Então, abaixa a cabeça e desaparece por trás do insulfilm da porta do carro que se fecha.


O policial volta sua atenção para Alexandre. O prisioneiro mantém o olhar fixo no carro onde está Anna Carolina.


POLICIAL
- Se isso aqui fosse um filme de Hollywood, essa ia ser a parte que íamos ver um flashback onde a gente ia descobrir se vocês eram culpados ou inocentes.


Alexandre olha para os fogos de artifício que estouram no céu.


ALEXANDRE
- Só que isso aqui não é filme. Não é Big Brother.
(olhando nos olhos do policial)
Isso aqui é a vida real.


FADE OUT.


O som dos fogos de artifício torna-se ensurdecedor.


FIM.